九 capítulo 9

Prédio

Pensando bem, o número sete é imperfeito e feioso, diferente de outros com círculos, veja o belíssimo oito por exemplo, ou ímpares mais elegantes como o um, um ótimo número, mas agora esse número sete não combina com nada. Sete dias da semana? Óbvio, isso é bem o motivo do tempo ser um conceito imperfeito, oito dias na semana é o que colocaria como regra se pudesse. Odiava cada dia que existe dentro desse espaço de tempo semanal. Espaços, o espaço entre: si e o lençol, o lençol e o teto de madeira maciça. O espaço que a fresta de sol da manhã percorre até o dedo de seu pé. O espaço entre ele e todos que já conheceu, um espaço que nunca parece ficar menor, nem mesmo se desejar que fique. A ideia de fim ou redução, ou mesmo mutação do espaço — claramente o conceito com tendência maior à perfeição do que o tempo — era assustadora. O espaço era reconfortante em sua oferta de distância. Tornava divertido dividir a si, os pensamentos, os sentimentos, os outros, em espaços. Nada depende entre si ou está muito perto assim. Por que tenho que acordar às sete em ponto? Preciso de tempo. Era confortável, objetos possuem definição concreta. Linhas, quadrados, círculos, no fim tudo é só uma variação disso, mesmo o objeto de todo aleatório tem certa harmonia ou não existiria em forma. Forma é harmonia.

Gostava de seus chinelos posicionados previsivelmente nos pés da cama, para seus pés em si. Têm-se o cálculo exato para suas medidas de roupas e nutrição alimentar. A única coisa que parecia fora de seu controle, era tudo que envolvesse o... tempo. Por isso não gostava dele. Buscava o equilíbrio: a água do banho era no espaço entre calor e frio. A comida matinal, entre o doce e o salgado. O tecido de sua camisa, entre o macio e o duro. A faca de pão afiada o suficiente, o suficiente para cortar sua pele e jorrar seu sangue como um chafariz, mas não iria muito fundo na sua carne, pensou. Estava equilibrada.

Viu pela janela do seu andar: o equilíbrio, o espaço entre as nuvens e a cor do céu da manhã, azul como água. Quadrados, janelas de vidro, linhas planejadas, sempre admirou arquitetos. Alguns homens anseiam pela arte, não podemos fugir disso, esses prédios são arte, e talvez nem sabiam que estavam fazendo arte. Mas é claro que sabiam! Ninguém que faz esses projetos calculados e simétricos não imaginaram imagens e sonharam com sua forma. Dava para sentir o desejo de ser visto em cada metro de concreto, mas o nome de quem idealizou nunca é divulgado, nunca vemos quem foram, não tem uma assinatura na parte de baixo do quadro a óleo.

Sua esposa era um caso especial, era difícil aceitar a imperfeição em objetos e conceitos, mas ela para ele estava aquém destes. Distante como o sol da terra, intocável por seu calor. Não se classificava, não se media, era o que era. Esquecia que ela tinha partes imperfeitas por vezes, esquecia das perfeições por vezes, não sabia dizer nem o que significava o verde-escuro dos olhos dela, pareciam um cenário vivo, que se mexia. Uma janela como a que estava olhando, mas para outro lugar, um lugar sem formas, um lugar indefinível. Nem tudo que é equilibrado tem formas, descobriu na primeira vez que se deixou penetrar por aqueles cílios piscando lentamente. Como algo poderia apenas ser dessa forma? Foi nela que sentiu o quanto o tempo em sua finitude lembrava-lhe da inevitável imperfeição. A mentira dos amantes, mas disse mesmo assim. Vou te amar para sempre.

Buscava inspiração onde senão nela, na estrutura d’Ela, lhe fazia imaginar um edifício: as janelas simétricas, as paredes de cor básica e geométrica. Cada espaço confortável como um abraço, nem muito quente, nem frio, nem sem muita luz, nem não escuro. A cor verde e azul mescladas. Se imaginava olhando para cima, admirado e com uma sensação de frio na barriga vinda do topo da construção nas nuvens nubladas, sentia também como se o edifício estivesse se inclinando sobre ele para o engolir em entulhos ou como se só sua altura já lembrasse da morte, da queda lá de cima. Jamais entraria nesse edifício, era perfeito como um conceito fotografado estudado por arquitetos e engenheiros. Morar nele seria sacrilégio.

Uma chuva violenta poderia limpar e remodelar essa cidade biblicamente, o mundo deveria ser bem pior antes do dilúvio, grande parte da humanidade tem que morrer. A água purifica e mata, mas é também é incontrolável como todo líquido. Pensou empurrando a porta de alumínio do saguão. Queria poder evitar todos, mas tinha que falar e parecer normal, e parecer perfeito — o relógio indicava adiantamento, não atraso, mas não era o mesmo de ser pontual chegar mais cedo — tinha que ser perfeito. Sorriu só com os lábios, os olhos indicavam frustação.

— Como está você? — Disse um colega de rosto torto, três olhos, a boca sorrindo e reprimida em cada lado.

— Excelente como sempre. — Olhou em um dos olhos, não via o resto do rosto deformado, não olhar nos olhos soa desagradável, diziam os Outros sempre.

— Final de semana ocupado, eu— Não terminou a frase antes de agonizar no chão, jorrando a si para todos os lados. Colega exagerado e tanto.

Tudo chiou sonoramente, derretendo em pontos cinza e preto. O programa tinha acabado. Por que essa lembrança agora? Por quẽ? Quem ligou a tevê, porra?

O espaço segue suas próprias regras, se é que regra é um conceito que existe, nunca funciona, nunca é seguida. Passos seguem alguma regra? Líquido e sólido, ambos da mesma natureza em equilíbrio, sem a interferência, seguem uma regra? Oh, a interferência! Ela corrompe a regra. Uma mancha líquida na harmonia, escura como sangue derramado ontem na minha camisa, um furo na regra. Odeio-lhe, espero que morra, e vou dançar no seu túmulo.

Se distraiu: eu estava olhando para o topo do prédio?

Embaralha!

O chiado voltou! Maldito som.

Óbvio que errei, óbvio que estava imperfeito, sempre, imperfeito sempre. Sempre horrível, sou sempre horrível. Nada que eu faço segue a regra.

Nada. Nada. Nada.

Tudo.

Tudo escorria em volume pela torneira de seu banheiro e dava para nadar, tinha acabado de acordar de um pesadelo sobre o nada e o espelho escurecia em vapor tirando a forma de tudo. A camisa boiando estava sem a suposta mancha que o fez acordar de sobressalto. Estava suja? Está branca! Muito branca, mas suja de um sangue que nunca sai, e ninguém consegue ver. Sangue de uma dor sem ferida. Despencou, os braços abertos em cruz sob o piso, queria afundar pelo piso como uma gota penetra a terra, ou como se descesse também pelo ralo. Um mártir vivo.

Esqueceu porque estava ali, não resolveu e não tinha o que resolver mais? Eu preciso voltar a dormir antes que ela… acorde? E se eu pegasse uma arma de água e apertasse ela dentro da minha boca, afinal estou com sede, quero beber dessa água doce, que tal abrir um espaço, espalhando meu vermelho e miolos na parede, sorrindo como a Esther, aberto como a Esther. Me esparrame com um som ensurdecedor.

O som queria lhe perfurar, e pingar atrás de seus olhos. Chorar é pingar pela frente dos olhos. Uma fonte de sangue jorrava seu tiro de arma de água pro alto, uma água carmesim, direto no teto de seu crânio, dentro da caixa, no palácio. Mas, não sentia cada gota cair dentro do buraco de seu ouvido exposto? Direto no seu tímpano, direto abismo adentro. O som tem forma, a música é um sistema de formas sem conexão, que se conectam porque queremos, ou por um motivo estranho. Seu grunhido de susto, um sistema de forma. Gritos são uma melodia.

Uma sala inteira? Pensei que esse banheiro fosse uma mera caixa de sapatos, eu me dobrei, me quebrei, me espremi para finalmente caber, os braços e pernas misturados. Era longo, o centro do lugar estava preenchido com o antigo banheiro, o resto piso branco molhado até chegar nas paredes pretas muito ao longe no horizonte. Preto e azul.

Azul era a cor das unhas da mão esquerda que pendia ao lado da banheira suja. Vermelho escorrendo do dedo anelar por entre o anel de casamento para pingar a cada intervalo de segundo, pingava escuridão líquida, profunda e tão escura que parecia ausente de qualquer cor. O corpo dela estava parcialmente submergido, o rosto apático em azul fraco, o nariz pontudo se escondia em linhas de cabelo escuro que se misturavam a linhas de sangue, ambas flutuando pela superfície gelada verde-clara assim como o vestido branco, não tão branco. Deu um passo e ela começou a se debater em violenta resposta ao som, os braços girando e chocando e espalhando, que pareciam ter se multiplicado em dezenas de braços, até finalmente ela afundar o resto de seu rosto e sumir junto com sua mãos, pernas e tronco, água abaixo.

Fez ondas jorrarem, espirrarem com uma parede de mão de um lado e do outro, procurando tirar Ela das águas, mas não havia nada. Nada. Mergulhou o rosto sem medo, “e se eu me afogasse aqui?”, não conseguiu ver o fundo, deveria haver um fundo, onde fora parar o fundo? Se sentiu perdido. O ar se comprimiu e retirou o rosto rápido, mas percebeu não ter mergulhado o rosto na banheira, mas na pia onde achou ter afundado sua camisa manchada antes, ou achou que tinha feito isso, nem lembrava com certeza, pois estava a vestindo e a mancha havia aparentemente sido resolvida, estava branca como giz. Talvez nunca tivesse existido, parte dele ficou naquela água. Por que mergulhou a camisa antes? A mancha era em outro lugar. Uma mancha de sangue quente, pulsando no ritmo. Decidiu deixar esse acontecimento descer e desaparecer assim como aquela figura fez na banheira. Que afunde no mar como uma besta.

Pensando bem: sempre esteve sozinho. Esteve no fundo da banheira antes, se afogava nos sonhos nela toda noite, na água fria da lua, sem brisa e vazia, querendo muito se afogar, mas nada além do desespero por morrer acontecia, não desespero pela vida. Se debatia violentamente em bolhas esperando que uma âncora de um navio afundasse do topo embaralhado de luz e água acima, a tonelada mergulhasse até ele e o esmagasse como uma alga. O que aconteceu foi que aprendeu a nadar, subiu as duas mãos para fora dos mantos líquidos e os movimentou como um maestro até beira-mar. Jorrou seu corpo na areia e respirou fundo por anos, olhando para as nuvens e se deixando queimar pelo sol. Mas queria mesmo ter sido esmagado como um inseto.

Pensando bem: estava feliz por não estar mais na praia. Lá ele deixou seu rosto afundar horizontalmente pela metade na areia, como se olhasse pro lado para uma alma gêmea que iria ser a outra metade, mas isso nunca aconteceu. Estava era se afogando por águas salgadas na altura do rosto que entravam por suas narinas e lábios em intervalos iguais.

Pensou nisso, e agora, olhava o mesmo semáforo de sempre, estava pensando também que o trajeto de volta para casa era seu favorito. “Foi tudo um sonho que tive brevemente no semáforo?”. Os prédios, as calçadas e o conjunto, eram melhor desse ângulo e iluminação de postes embaralhados, poças, umidade, ausência de pessoas. Assim como seu rosto pelo lado que tinha afundado na areia antes ficava melhor em fotos, era o que dizia sua esposa sorrindo só de um lado do rosto. Mas ela não, qualquer ângulo chegava no mesmo resultado. No mesmo magnifico resultado doce. Tique. Verde. As luzes se embaçam no vidro, se embaçava junto, sentia-se como as luzes na noite, efêmero. O ar é sempre frio nas ruas da cidade noturna, que confortante. Sentiu vontade de parar o carro e chorar um pouco (muito). Embaçar o rosto como um espelho no vapor, o rosto derretido em lágrimas. Os lábios com o mesmo gosto salgado do mar que o afogara, o mesmo gosto das lágrimas dela quando beijaram-se no casamento brilhoso, cheiro de rosas e orquídeas voltaram. As pontes passando pela parte de cima interrompiam sempre seu pensamento, o túnel escuro chegava e o engolia goela abaixo para suas entranhas. O cair do manto escuro do pensamento lógico, apagando qualquer esperança, “foda-se você”. Só o que via no túnel era a linha do farol, que vinha de si mesmo. Não há salvador.

Foi cuspido… Queria era afundar nas águas das ruas, pensou entrando em seu quintal, o gramado escuro e úmido. Pensou em enfiar o rosto nele, em regar o gramado com seu sangue e olhar para sua casa com os olhos cheios de terra, os pulsos jorrando como uma fonte de água vermelha. Sua casa quadrada e assimétrica, era distante das casas dos vizinhos em metros calculados. Queria representar a distância. Sua mão cruzou a linha do tapete retangular da entrada e girou as chaves, barulhentas, que tirou do esconderijo, que pega sempre no automático e nem sempre se lembra de onde fica, mas nem precisa lembrar. Ao outro lado da porta estava o banheiro do trabalho*.*

Era uma visão torturante, era maior, bem maior do que antes, e agora escuro e profundo, uma luz fria fraca piscava em intervalos. Sentiu algo afundar bem fundo e se rasgar dentro dele como um copo descendo escada abaixo até sobrar apenas destroços no último degrau. Pois, que afunde como uma âncora. “Foda-se, eu devo ter aberto a porta errada”. Fechou e abriu a porta novamente em um estrondo, estava tremendo quase o suficiente para não conseguir girar a maçaneta. “O que isso significa? É o efeito colateral?”. A soleira de sua casa se exibia agora, mas seu corredor parecia tão fundo quanto uma garganta de concreto pronta para engolir-lo, e não conseguia ver sua sala de estar ou qualquer porta outra, apenas a mesma parede indo para frente até o quadrado de luz sumir no ar; mas seus sapatos de ontem, o sapato de sua esposa e o guarda-chuva que esqueceu, na soleira esperavam há tempo, então era sua casa. O sapato de sua esposa, de couro e sem salto, estava de lado, com apenas uma das meias azul-escura. Pensou em fechar e abrir a porta novamente, e quem sabe um lugar melhor surgisse. “Como se existisse um lugar bom nesse mundo, não nesse mundo”. Como o lugar onde realmente pertencesse. Como aquela sala de consultório em que ouviu que ela tinha uma doença sem cura. Você está confundindo bom com mal. Ou, quem sabe, de volta ao quarto de hospital do dia anterior ao seu nascimento, quando ainda não era tarde demais, um benção quando ainda não existia. Agora era tarde, estava amaldiçoado. Abençoado com uma maldição.

Era vertiginoso, ia adiante, sem fim, não só o corredor, a sensação de querer desaparecer, correr sem parar até o fim do corredor, sumir para si como sumiria para alguém observando de longe no inicio do corredor. Que o fim não seja a morte, pois ela não termina nada. Um fim, como terminar quando nem começou? Uma linha final: queria isso!

Isso lembrava-lhe de como olhar direto nos olhos dela é, áspera como solo sua íris, sentia seu corpo escorrer por dentro dessa íris, sendo sugado como poeira para dentro do aspirador, se juntando e indo para dentro das cores estampadas naturalmente no líquido. Como se corresse para o interior dela, esse corredor. Sabia, nos olhos se vê refletido o que alguém sente, e ela parecia sentir como um poço. Pensou em saltar nesse poço, cair no seu fundo em um estrondo de ossos quebrando e água jorrando, barro se misturando ao sangue escuro, e ficar em posição estranha esperando tudo sumir e ser absorvido pela terra e pela água. Era romântico, mas ela nunca o deixava lá, sempre lançava uma corda lá do alto e o arrastava até a superfície, limpava o barro de seu rosto e o beijava, um beijo salva-vidas com gosto de saliva limpa entre as línguas lentas e vermelhas. Mas não tinha o salvado ao fazer isso.

As paredes se expandiam para o lado nesse corredor — não havia mais corredor. Tão pouco conseguia ver as paredes do fundo em meio ao breu. De novo, estava em meio ao som de chiado de televisão de tubo, do silêncio, da solidão. Cadê as vozes do programa favorito dela? Ela sempre escutava de olhos vidrados no teto, pensando na morte. Viu a banheira de antes, vazia, apenas com marcas escuras de água parada, pouco iluminada. Mais nada, a sala estava completamente vazia. Procurou com as mãos pelo nada, então finalmente foi pelas paredes laterais, encontrou elas, mas estava procurando uma porta agora. Procurando um som que não fosse dos seus passos e esse chiado. Uma voz que não fosse essa que ouvia e que lhe odiava. Sua mão fechou em uma maçaneta encrustada em prata, era de seu quarto.

A forma era para ser perfeita. Algo tem que ser perfeito, algo. Lembrava de pensar que finalmente tinha encontrado algo perfeito quando ela derrubou o garfo sob o piso de madeira do restaurante na ocasião do primeiro encontro. Ela afundou com o braço estendido rapidamente, mas o garfo deslizava para longe, fugindo e fugindo, até ela finalmente conseguir, as pernas se exibindo pelo seu vestido preto de linho, agachada como uma arranha, levantou o garfo de forma desengonçada e envergonhada, o brilho da prata refletiu direto nele. Era como se cometer esse erro, e quebrar sua até então imagem sem erros, a tornava completamente perfeita. O mesmo garfo subiu um pedaço de torta em triângulo para a boca dela e ela sorriu com o dente superior do meio sujo de vermelho cereja. Não estava idealizando nada, estava apenas a vendo. Queria esse garfo agora para enfiar olho a dentro e dar para ela o engolir como a cereja de uma torta exótica.