十 capítulo 10
Quarto
Colocou o dedo entre a meia de seu sapato para tirar seu pé de meia, mas teve que fazer força como se seu sapato apertasse seu tornozelo com pulsos de couro. Suspirou se sentindo meio derrotado pelo sapato. Deixou os sapatos na soleira do quarto, alinhados como ela obriga. Quase não havia luz ali, a janela estava fechada, um cheiro leve de rosas pairava, o mesmo cheiro de sempre como ela obriga. Com as pontas da meia caminhou sobre o tapete dourado escuro de estampas, um tapete que ele se sentiu hipnotizado por quando viu na venda, como se fosse uma espiral girando em sentido horário rápido, mas ela não gostava dele. A cama era macia, tinha que ser, ela não queria sentir uma ervilha abaixo deste colchão. Ela sentiria. Ela estava dormindo virada para janela, a coberta branca cobrindo-a até o pescoço, seus cabelos castanho-claros encaracolados cobrindo seu rosto, menos seu nariz pontudo. O prato com a torta que deu-lhe antes de sair ainda estava ao lado da cama, com apenas rastros doces e garfo em posição estranha. Deu mais um passo e outro, tentando não fazer um som, não havia chiado ou som de respiração, apenas um pingar muito longínquo.
— Não vai abrir a janela, você não vai fazer isso. Você me odeia? — A figura dela, com camisola branca, emergiu dos cobertores como um navio do meio do mar, o rosto ainda escondido no meio dos cabelos.
Em sobressalto, tateou até sua poltrona do quarto e despencou sobre ela, como se estive quase morto de cansaço, um cansaço que não sabia de onde vinha. Não a olhou nos olhos, ficou olhando para as próprias mãos, como se estivessem sujas de sangue e não tivesse onde lavar.
— Onde estava, posso saber? Não fala nada, nunca fala porra nenhuma, é um mudo inútil. Não consegue lavar suas mãos, não consegue alinhar os próprios sapatos, não consegue pensar em linha. O que você consegue, afinal? — Ela se sentou com as costas na cabeceira.
— Eu fui na farmácia, a atendente… ela…
Olhou-a nos olhos sem querer. Ela o olhava fixamente desde que disse o que disse, os olhos vidrados com duas íris pretas como a noite, o rosto com expressão intensa de desgosto, os lábios franzidos. Continuou a encarando de volta, se sentindo hipnotizado como se ela tivesse dois espirais no lugar dos olhos. Sentia ela cada vez mais perto, lentamente mais perto, o rosto sempre imóvel como uma estatua, vazio de emoções em porcelana branca. Uma estatua religiosa de porcelana prestes a chorar sangue, perfeita para ser prostra em frente a uma igreja católica, a expressão de julgamento por pecados de mortais, o corpo dela deslizando como uma cobra por sobre o cobertor até ficarem com rosto próximo, o mesmo rosto.
— Espero que essa atendente tenha o rosto desfigurado… só fala dela, só fala dela o tempo todo. — Disse ela em tom choroso, os olhos molhados.
Com um som de tapa, ela apertou o pulso dele, sobre o braço de sua poltrona. Mirou-a com olhar assombrado, mas não relutou quando ela lhe puxou para o meio da cama com ela. O puxava com raiva, como uma mãe puxa seu filho mal criado pelo pulso por ter feito uma peripécia na escola, fazendo-a ter que ir na diretoria ouvir um discurso de ordem com tom de ameaça. Então o deitou de costas, e se deitou ao seu lado, os braços se encostando.
— Você ainda me ama?
— Você sempre pergunta as mesmas perguntas que sabe que não tem uma resposta.
— Pelo menos sabe o que é amar? Você não parece sentir nada por nada, nunca sabe nada.
— Eu sei que eu vou morrer.
Como um vulto, se jogou sobre ele e encostou seu nariz ao dele. Podia ver a sobreposição dos olhos dela, muito próximos, escuros. Sua respiração com hálito da torta exótica de cereja que comera e que o prato ao chão denunciava, seu bafo era quente como o de um bicho-papão.
— Por que criaram isso? Por que algo que não tem resposta precisa doer?
— É tão profundo que não pode ser encontrado para ser explicado e parar de doer.
— Por que ficou me procurando tanto? Se sabe que não pode ser encontrado.
— Não posso viver sem te buscar.
Lábios e uma mistura de línguas.
— Não irá me achar nunca mais, eu vou para tão fundo que não haverá forma. Eu não quero que me ache.
— Já faz isso, sempre fez. Ir tão fundo não vai te fazer achar, vai morrer afogada.
Se abraçaram tão forte que um pouco mais forte uniriam seus corpos em um corpo de quatro braços. Sentiu os lençóis girarem em espiral, com seus corpos se esfregando em sons úmidos. A cama foi mudando de forma, do quadrado ao círculo.
— Ficou mole feito uma lula morta, você não me ama?
Colocaram os olhos tão perto um do outro que sentiam suas lágrimas se trocando em fluxo, como se chorassem um mesmo choro.
— Lá no fundo, eu vi um peixe, era verde. Eu o vejo. Eu quero voltar lá e trazer pra você, ele ainda vivo. — Ele viu as íris nos olhos dela ganharem movimento de uma maré. — Quero te ver com a faca o abrindo.
Algo subiu e desceu violentamente nele. Se debateu sobre a cama como um peixe, ela o segurando como se segura um peixe que se está matando sobre a pia, a faca jorrando sua cabeça para o meio da pia e o movimento parando. Subiu e desceu, o movimento de braços. Os lençóis foram se pintando, rápido e em fluxo com um líquido preto que jorrava dele a toda. De branco, se tornaram negros. Do limpo ao sujo. Alguém bateu a porta e entrou sem ser avisado. Homens de branco de uniformes com identificação, mas ficaram parados na soleira, os rostos vazios como se só tivessem atendido um alarme falso de um problema em um dos quartos de pacientes, a seringa pronta brilhava sua agulha.
Olhou-a nos olhos antes de ser empurrado para fora da cama e seu pulmão afundar no seu estômago, o lençol negro enrolado ao corpo caiu junto, mas não encontrou o chão. Era uma queda livre, não sabia para onde o assoalho teria ido. As janelas passavam rápido, estavam caindo andares abaixo, via pela janela transparente uma escadaria, e ela descendo rápido, as pernas trabalhando entre degraus, estava o acompanhando na queda lenta. Areia se levantou como uma onda no fim de sua queda, uma queda em um mar de areia. O prédio de onde caiu estava metade submerso ali, n’areia. A entrada não existia, logo também sem saída, ela continuou lá dentro, nas escadas interrompidas.
O prédio ainda era alto demais, gigantesco como o medo que sentia. Caminhou para trás tentando ter uma visão completa da construção. E para se afastar dela, que tentava atravessar o vidro do andar para ir até ele. O dia estava acinzentado, o sol surgia pouco entre cada onda de areia, como vislumbres de luz. A tempestade passava como lençóis sólidos, lambendo a superfície das janelas e deixando um reflexo de movimento, como se fossem uma tela de tevê fora do ar. Continuo caminhando de costas, o céu ficou um dourado, ainda escuro. Então ela sumiu na distância, não a viu mais, o prédio ficou por suas costas e se pôs a caminhar, sua capa escura dançando com o vento do deserto.
Só haviam dunas, areia, uma planície sem fim, mantos de sujeira girando, subindo e descendo. O assoviar, a canção do deserto, para acalmar sua profunda solidão. Sentia a mesma tempestade deixando seu coração áspero, empanando-o em areia. Ela deveria estar por ali, continuaria a buscando no deserto. A sede estava lhe devorando. Mas ele iria a achar. Sentiria quando a encontrar, seu coração avisaria. Então com as mãos nuas cavaria por entre a areia e a acharia. Uma múmia, enrolada em seda. Acharia água no deserto, dentro dos olhos dela, e beberia. Ela está entre os lençóis de areia, por entre as dunas, escondida no som estridente que se espalha por todos os lados. Ele a acharia. Até ali, o deserto só ficava mais escuro, seu corpo coberto pelo manto negro emagrecia, só via pouco a frente com seu cajado. Era incerto, acreditar que algo o salvaria disso exigia fé. Mas ela, com certeza, apareceria. Por todo o deserto vagaria, de novo e de novo, porque isso é amar.