八 capítulo 8
Cidade
Era um cheiro que fedia ou cheirava bem, ao mesmo tempo que, cochava dentro das narinas como pó de vidro quebrando em milhares de pontas por um acidente de carro — para se espalhar e ir cortando por onde entrasse. Espirrou. Mas em contragosto, pela sua boca o ambiente girou como fumaça de carvão semilíquida garganta abaixo, jorrou de volta um tossir, sonoro como olhar no abismo escuro embaixo da cama empoeirada no sugar de bafo quente e palavras indecifráveis do bicho-papão, fugidas de seus orifícios mais negros que o escuro, para então depois expulsar tudo; também como inalar a massa escura barulhenta daquela chaminé, absorvê-la.
A fumaça era fúnebre, sentiu com clareza que o corpo se misturando no ar era dele. Pensava nisso quando criança, enquanto observava aquela torre jorrar sua fumaça a toda em direção ao céu inocente e azul. Imaginava com medo, os gritos de alguém se contorcendo nos fornos, alguém indefinido ainda. Um homem maltrapilho disse sem ser perguntado que era o que faziam atrás daquelas paredes de tijolo escuro. Matam vocês em fornos de lenha, disse. Talvez tivesse visto que o garoto estava muito interessado em olhar a fumaça dissipar-se e queria o afastar dali, para longe do abjeto. Engano dele, pois não só esperar o abjeto dissipar-se fazia ali, mas se interessava no mecanismo da torre, em sua função de criar e jorrar a morte aos céus como uma máquina per se, sua casa deveria ter conceitos de mesmo nível quando a fizesse. Oh, cheiro de morte.
Muitas das prateleiras de medicações estavam de lado ao assoalho, talvez sendo o resultado de um efeito dominó do baralho de cartas de aço, o castelo de cartas derrubado pelo empurrão das mãos invisíveis gigantes do intrometido. O mais provável era apenas o desespero dos clientes antigos, que também se espalhou como lodo sob o conteúdo das caixas por todo lado, se misturando ao sangue e aos destroços; talvez estivessem buscando algo que curasse o que não poderia ser curado no corpo… e encontraram. Seus corpos não estavam mais ali. Mas para quê um corpo?
Sou o único que restou? O abjeto. O que sou eu sem os outros? Sou fumaça escura se desfazendo.
Deveria ser branca a cera do piso, branco como o que vem depois de apertar o gatilho. Pensou ter flertando com isso muito ultimamente. Flertou com a porta de vidro da entrada que ia e vinha com o vento sem rangidos ou gritos agudos, não gostava de gritos mesmo. Era um aceno de despedida ou de boas vindas aquele movimento, mas não sabia. Esperava ouvir algo em algum lugar, dentro ou fora, o som do silêncio era insuportável. Penetrava por sua pele pálida com uma agulha que ejetava frieza liquefeita por suas veias que ia feliz até seu coração para cristalizá-lo em água doce, uma escultura no inverno frio do oco da máquina orgânica chamada corpo, seu sangue quente, o óleo parado pingando. Queria lamber a escultura, para sua língua grudar e ter que arrancá-la com um facão. Perdendo o poder das palavras pela eternidade.
Sentia a falta. Do quê? De vida em todo lugar. Por isso? Sim, algumas pessoas ligam a televisão morando sozinhas, o barulho das vozes em discursos virtuais, o som de música das propagandas, ambos dão a sensação de companhia. Ou de estranheza, como se tivessem intrusos na sua casa, conversando em uma língua que você deveria entender o significado, mas que chegou no meio da cadeia de significantes. Mas não tinha tevê alguma ali. Ou tinha? Onde?
A dose certa o faria apagar a tevê? Na verdade, não sabia se era o que queria. Era de difícil acesso, teve até que saltar sobre o balcão empoeirado, quase dando de rosto no piso. Era um tratamento muito específico com efeitos colaterais igualmente específicos. Já que ele era tão único. A prateleira estava próxima demais da porta que levava aos fundos da farmácia, a área exclusiva a funcionários autorizados, somente os escolhidos. A pequena janela octogonal da porta estava em vermelho, sabemos que significa para ficar longe. Era o que o deixava mais curioso, o outro lado por entre o escuro do sangue negro do quadro sob vidro, sua tinta muito seca como a que se via no piso dos corredores, o artista espalhou as formas por acidente. Ou seja, em forma de arte. Formou uma borboleta negra liquefeita em um movimento de voar criativo e final, após seu derreter de alguns bateres de asas, desabaria. A queda do anjo.
Colocou uma embalagem no bolso de trás e decidiu ir contra o que seu instinto dizia. Não vá? Não vá! Tenha medo. Colocou a mão pálida na superfície da porta ensaiando para a empurrar, não tinha fechadura, mesmo sendo uma porta supostamente proibida. A proibição era uma barreira não explicável, não física.
Viu uma fresta.
Eu bem que te avisei!
Um faixe passou através de seu olho — tinham prateleiras com papéis de registros de letra manuscrita em vermelho e carimbo azul — abriu o olho mais um pouco, mais nítido agora — tinha um dos pés com uma sandália enfeitada mal colocada, o outro nu, sem sua meia branca, de qualquer jeito de lado de forma estranha — quis ver mais com receio, trêmulo — suas pernas abertas de forma não planejada, as costas apoiadas na prateleira desconfortavelmente — os olhos, eles queriam ver a pintura completa em suas nuances de vermelho-sangue sob tela de pano — os braços distintos, um tivera caído ao lado, o outro pousado na coxa esquerda — quis fechar os olhos para tudo sumir — o braço dominante ainda apoiava a espingarda, o indicador eternamente pressionando o gatilho — uma lágrima embaçou sua visão com sabor salgado — é claro que conhecia, admirava seus dentes brancos enquanto contava notas de troco e moedas, viu o nome “Esther” na faixa do jaleco encharcado de vinho — colocou a mão sob o horror da vala de sua boca aberta sem som, o odor doce pairava e era sugado para o fundo de sua garganta — o rosto sem nada de rosto fora desfigurado em fendas desregulares, em formas de ravióli com molho de tomate, no quadro: um crânio, menos de ossos e mais de cogumelos, espalharam-se pela prateleira, por suas costas e tronco como uma praga natural, grudados lindos a essa estátua-cadáver — nunca vira nada da espécie Dente Sangrento em vida — dentes estavam na base da carcaça enfileirados, como se fossem o sorriso dela, eternamente representado pelo natural. Gostava do sorriso falso, gostava do olhar de compaixão falso, e do odor da sala impregnado pelo perfume exagerado que ela usava para não sentir o cheiro insuportável de remédios e produtos de limpeza . Mas agora, a sala de estoque se tornara em uma gigantesca e medonha boca com bafo doce — uma boca que não pode falar, pra quê serve?
Com a fenda, a boca, o buraco com fim direto em seu coração, ainda aberto, um som finalmente saiu. Era um riso, agudo cortante, não tão diferente de gritar, tão perto de chorar quando de morrer de felicidade. Caiu de costas em um baque surdo entre as prateleiras, como se estivesse muito cansado. Poderia dormir ali, pensar em dormir o lembrava do sentimento de morte, a fumaça negra em toda parte da qual o cheiro não desaparecia e não ficava menor. Não se dissipava como o que saia daquela máquina. Apalpou o bolso de trás e, trêmulo, abriu a embalagem e deslizou cinco comprimidos no centro da mão. Não é a dose indicada, você se odeia? — Odiava essa voz, a razão e, claro, se odiava. Engoliu em seco, sentiu os comprimidos descerem como se o sugassem por dentro e rasgassem-no. Descessem como uma espiral, levando o abjeto junto a ela até as profundezas, o que sobrava acima era água limpa.
Por que não fazer o mesmo que ela? O cano com sabor de ferro sob sua língua e depois o som violento espalhando vermelho e cogumelos, então sorriria. Sentiu algo girar dentro de sua cabeça, a água limpa subindo em espiral de sentido horário, os ponteiros do relógio girando tão rápido que pareciam formar um círculo na parede. Como saberei que horas são? Tempo realmente não é tão importante. Não dava-lhe tontura o movimento, mas sim, a falta do tempo fazia as coisas se organizarem, seus pensamentos se empilharem, seus sentimentos se equilibrarem, suas linhas de dor se corrigiram, os quadrados dos pensamentos flutuantes se endireitarem na água, as memórias perderem o peso e afundar. Em contrapartida, uma embalagem flutuou e voltou pra umas das prateleiras no fim do corredor, sentiu que tinha saído de dentro dos seus pensamentos liquefeitos. Uma das prateleiras caídas talvez tivesse criado braços invisíveis que com esforço içaram seu corpo, em seguida cada um de seus conteúdos originais voltaram em tiro mudo. Parecia calculado. Flutuavam e voltavam para seus lugares, externa e internamente. Tudo organizado? Está perfeito? Satisfeito?
A janela da porta que ia para o fundo agora estava limpa como o céu azul, tanto, mas tanto que era um espelho agora. Viu a si mesmo, sorrindo, um sorriso muito forte, os olhos abertos sem piscar. Esplêndido! Estou ótimo. Não acreditou no próprio pensamento, mas ao mesmo tempo acreditou. Foi caminhando espalhafatosamente até a porta de entrada, ainda bem que ninguém estava vendo. Sentiu falta da borboleta, talvez ela tivesse ido à outro lugar. Estaria com ela? Ela, quem mesmo?
As calçadas limpas, as árvores do centro mais verdes do que os olhos dela e falsas como promessas românticas de eternidade, mas quem não promete assim quando apaixonado? O tempo pouco importa nesses momentos, o sempre é sempre pouco. Te amo para sempre. As fachadas apagadas das lojas estavam perfeitas, suas paredes de vidro escuro, tão mais sólidas quanto concreto. Te quero para sempre. Os manequins parados, suas roupas elegantes intocadas. Te adoro para sempre. Os carros estavam estacionados em intervalos, tirando um que estava virado no meio da rua como se tivesse capotado, mas estranhamente intacto. Quero seu corpo no meu para sempre. Era a única coisa que estava estragando até agora e não tinha ninguém caminhando, ninguém sentado nos bancos, ninguém olhando as vitrines. Me ame para sempre. O sol estava fraco, branco acinzentado, uma neblina flutuava pela superfície e subia pelos prédios e pelo arranha-céu brutalista do banco central até seu topo invisível, não via além de duas quadras. Mentiu para mim.
Um passo encima do outro, quase como se um terceiro pé quase pisasse nos outros, ou como se alguém dividisse seu corpo com ele. A calçada com frestas de folhagens divididas como um relâmpago. Sentiu coçar por dentro do ouvido e decidiu voltar quase caindo de tanto correr. Foi até o carro virado e abriu sua porta do motorista de forma contraintuitiva puxando a engrenagem para baixo. Com esforço, se sentou no banco, apoiando os pés no painel e prendeu-se com os cintos. Subitamente com o clique dos cintos indicando que estavam lacrados, sentiu suas entranhas e cérebro girarem em si mesmos, como se o carro capotasse novamente, mas no mesmo lugar. Escutou rodas se arrastando em um sonoro som de borracha com cheiro ruim e o som de janelas se partindo em uma cacofonia. Não sabia mais, se o carro estava girando na horizontal ou se o resto do mundo estava. Os prédios se misturando no horizonte como os ponteiros do relógio, os céus descendo. Estava no lugar, as rodas no asfalto agora. Olhou para as janelas — nenhuma estava quebrada. O banco traseiro que teria causado os sons afiados, nele várias fatias de vidro com reflexos de espelho estavam acumuladas como uma escultura. Viu a si nelas, dividido em várias partes, uma delas sendo sua testa escorrendo. Sangue! Era sangue! Viu nas pontas do dedos ao descê-los de sua testa, o vermelho com gosto de ferro. O mesmo gosto do cano. De onde viera seu ferimento no centro da testa? Suspirou profundamente com as duas mãos no volante tentando ver o mais longe que dava do fim da avenida e sua nevoa. Esse carro era dele. A estrada parecia maior a cada segundo, mais íngreme, mais curvas surgiam lá longe e afundavam. Não parecia ter um fim, mas olhar para atrás, além do vidro do retrovisor, também fazia-lhe lembrar da ausência de um começo, cada vez mais longe como uma queda.
Dentro de mim corre uma avenida de incertezas, rápida em carros luminosos com passageiros tentando se chocar para o contato violento e sexual das entranhas abertas de seus carros. Fui nascido em um dia fixo de horário congelado, uma imagem parada em negativo, números com barras separando, um ponto de partida da consciência temporal. Não sei quando fui realmente concebido, será que foi no momento da paixão mútua de meus pais (quando o carro deles se chocaram e se fundiram em um amontoado de destroços sem função)? Será que na fecundação? Quando meu coração se formou totalmente nas águas da placenta de minha criadora? Quando meu primeiro pensamento surgiu em meio as visões embaçadas e sons incompreensíveis que vieram a se tornarem na minha língua materna, agora morta? Quando aprendi outros medos sem ser cair e de sons altos? Não quero lembrar disso… mas algo se lembra. Acreditar no começo ou em algo é, por si só, uma tarefa difícil o suficiente. Meu início não precisa de definição, o fim ainda incerto, e sequer tenho um agora.
Sentia o mundo inclinado para a esquerda, como se escorregasse, mas nada estava saindo do lugar, exceto aquilo. Algo estava tentando fazer o prédio do banco central tombar sobre a avenida e em um prédio comum, como quando inclinamos um prato com um copo de vidro sobre a pia quebrando-o no assoalho. Ele virou, sua estrutura amoleceu e sua altura colossal sucumbiu de sua base em um estrondo apocalíptico, o cimento jorrou e levantou sua fumaça aos prantos em uma nuvem de gritos e cimento, o estrondo amassou o silêncio, o outro prédio abraçou os destroços e os engoliu com fome quase como uma boca de janelas, as vidraças das janelas dos andares se partiram em efeito, mas os outros sons eram mais altos e isso foi mudo. O asfalto levantou e criou uma onda de som e forma em reação ao beijo dos dois prédios, e vinha em sua direção como vento de uma tempestade maldosa, assustadora.
Deu partida no carro para fugir do tsunami sólido, o mesmo som de borracha anterior voltou, mas agora o cheiro era de poeira. Fugindo da onda de destroços, viu mais lá na frente, na mesma avenida na esquina próxima, que a sombra grudada dos prédios ao seu lado terminavam em uma linha que normalmente seria a luz do sol. Mas além dessa linha, a escuridão era maior que a própria sombra projetada. A linha dividia o dia da noite, o dia não era tão convidativo com seu céu nublado e sol cinza, mas a noite era ainda pior ou mais sincera. Olhou para o retrovisor e os destroços haviam sumido e o prédio central estava de volta ao seu lugar, intacto. Mesmo assim atravessou a linha.
Sentiu a escuridão penetrar pelo seu peito. Se imaginou então voando, no frio intenso, no escuro, o coração vazando. Ele seria uma pomba-apunhalada, o sangue no entanto escuro*.* Uma pomba que anunciaria não a paz, mas o fim e o começo, e seria morta e cozida no fogo da perversão por famintos de paz.
A escuridão molhou sua visão como as águas profundas, tudo no retrovisor sumiu em uma nuvem escura. O início foi apagado. Tudo que podia fazer era dirigir (voar) pela avenida escura, sem ver para onde estava indo, nem por quanto tempo iria em frente, com o farol direito forte e arrogante como uma luz fantasmagórica que deixava efeito de rastro fotográfico sem um fotógrafo, seu outro farol falhando a cada segundo sem muita confiança, fraco como uma convicção religiosa rígida e moralista. Deveria ter mais fé, herege. As vizinhanças eram vultos, as calçadas borrões de tinta preta, os postes supostos pincéis. Desviou de algo: um manequim vestido de branco parado em meio a estrada, olhando para cima com esperança tola, o rosto vazio, mas não viu nada. Mais deles estavam à frente, parados, mais e mais deles. Desviou deles girando o volante, mas não conseguiu desviar de um, que sujou seu para-brisas de preto avermelhado em um estrondo afiado como ouviu antes que preencheu seu banco traseiro com estilhaços, a massa escorregou por sobre o teto rolando como um saco pesado e deitou-se violentamente no asfalto que ficou para trás em posição estranha.
Sentiu que por baixo de seus cabelos a escuridão borbulhava em nuvens e se espalhava. Alguns chamam de névoa mental, sempre achou que essa névoa fosse cinza, mas era escura, vazia e fria. Frieza é só a ausência, pura e vazia? Os faróis iluminavam demais, mas não iluminavam de verdade, eram só espalhafatosos para mostrar utilidade e não serem desligados. Sentiu que desligá-los era do que precisava então. Ou não precisava? — Escuro. Luz. Tudo se inverteu.
O dia jorrou além dos vidros das janelas do carro revelando os objetos, a divisão entre dia e noite se tornou a divisão entre dentro e fora. Dentro a escuridão fria tomou conta, não conseguia se ver nela. Nada dentro era visível ou tinha materialidade, tudo que via eram seus pensamentos e sentimentos, em formas sem cor ou limites, entrelaçados entre si como uma rede, pensou melhor que forma seria uma definição reducionista, mas não tinha um termo melhor ou sentiu que precisava de um. Ver o abstrato não seria nunca natural não importa o seu termo.
A paisagem através das janelas, ele conhecia, era o parque em que conheceu ela, logo ali na frente. Do lado. Atrás. Estava também muito perto de casa, poderia ir andando. Não sentia o próprio corpo, era apenas uma mente boiando na escuridão líquida, as janelas: telas de cinema da realidade. O carro não parecia que ia virar na curva, mas não sentiu medo de não sentir ter controle. Sentia que o que ia acontecer já tinha acontecido. Quem se preocupa no passado? — Um baque afiado junto ao impacto sonoro. Seu ferimento na testa finalmente fez sentido, o sangue da revelação descendo pela bochecha. Uma pomba-apunhalada, mas a mancha na testa. Ao sair do carro se arrastando sentiu que tinha entrado e saído do mesmo carro, na mesma posição, que estava virado sobre o asfalto da mesma forma, no mesmo lugar, só tinha invertido passado e presente. Luz e sombra. Vida e morte. Se levantou e foi caminhando até em casa, em meio aos entulhos, para dormir.