八 capítulo 8
Borboletas
"Uma taça de prata com enfeites circulares em forma de pequenos sóis, a luz amarelada das velas e lâmpadas do restaurante refletia neles, ora, então parecia ser deles. Vinho tinto, quase negro, preenchia-a até quase sua metade, a escuridão rodeada pela luz. A taça levantou, tapou parcialmente seu rosto sorridente por breve e novamente desceu de seus lábios de batons escuros como o vinho. Ela me mirou diretamente nos olhos. Lembro de sentir como se algo me puxasse para trás bem fraco, mas não fraco o suficiente para não ser perceptível. Seus olhos adquiriram os tons das águas azuis pôs-tempestade, sua íris tinha uma maré, ondas violentas e brilhantes. As vozes em volta se abafaram. Com sua mão esquerda levantou a taça novamente, com sua outra começou a cortar uma fatia fina do bife frio sobre o prato, com pouco tempero. Ao mesmo tempo, com outra mão alcançou a pimenta e, com outra mão, segurou minha mão direita carinhosamente.
— Qual o sentido de comer carne animal? Não torna isso menos cruel e sequer é mais gostosa — disseram várias vozes ao mesmo tempo vindo da mesma direção, dela.
Dela.
Ela mergulhou o rosto em direção ao bife e o abocanhou de forma animalesca. Percebeu com isso que nas costas da cabeça dela haviam uma galhada pontiaguda de chifres, mas eram diferentes, pareciam de ossos humanos. Ela levantou o rosto com a boca cheia. Sentiu o gosto do bife assim como ela sentia, era pegajoso com gosto amargo.
— Se eu acho minha própria espécie saborosa, vocês também achariam a de vocês — suas bochechas e lábios estavam sujos de sangue. Engoliu. Sentiu que o gosto era ruim como ela, sentiu vontade de vomitar, mas ela não parecia sentir. Fez rosto de satisfeita. Com outra mão ela pegou a faca, agora suja. Colocou sua ponta para cima e a apoiou na mesa em posição estranha. A maré estava violenta nos seus olhos, o azul estava escuro e moribundo, um navio pontudo ia se aventurar por suas turbulências, afundar no desconhecido e matar seus passageiros um por um de frio liquefeito, seus múltiplos gritos audíveis por quilômetros de distância, mas não o suficiente para serem resgatados. Ela desceu a cabeça com violência. Algo rasgou."
Um grito agudo muito alto, sentia sua própria garganta vibrar, não sentia que o grito era seu. Estava escuro, não sentia nada sobre suas costas. Sentia suas mãos e pernas apoiadas no que pensou ser o assoalho, mas seus sentidos estavam confusos, se sentia ao contrário. Semiabriu os olhos e sentiu uma queda vertical afundar seu estômago e depois sua cama rangeu com o fim da queda. Abriu os olhos confusos, se debatendo sobre seus lençóis, sentindo como se eles o sufocassem. Um vulto difuso surgiu deslizando, os cabelos longos sobre uma camisola branca.
— Está bem? Teve um pesadelo?
Parecia assustada e sua voz falhava. Sentiu o medo dela, seu coração se encheu de tristeza e medo, sentiu vontade de abraçar a si mesmo enquanto chorava. Disse:
— Não se preocupe… é que o pesadelo foi o bem… real…
— Óbvio que vou me preocupar. Gosto-te muito. — Sentiu as mãos dela arrumando-o na cama e o cobrindo novamente, de forma aconchegante. — Podemos dormir abraçados hoje… não posso te deixar sozinho.
— Não podemos, eu poderia acabar te assustando… como naquele dia…
— Eu sei — um carro apressado passou na estrada próxima e a luz branca de seus faróis entraram pelas frestas da janela, iluminando o rosto de Isis por breves segundos, como um clarão de trovão. Sorria de forma estranha, os olhos apáticos e frios afastados dali, olhando para quem sabe onde, de certo foram junto aos faróis, agora além. Assim, ela se afastou lentamente sem dizer mais nada e seu vulto difuso desapareceu na escuridão, como se fosse engolida. Ficou sozinho novamente.
Sozinho.
Como aperta! Pareciam vários cintos escuros de automóvel, enrolados em cada um dos seus membros, em volta de seu pescoço. O coração não sai do lugar, então não tem porque apertá-lo assim. Uma mão estava lá, impedindo-o de bater livremente. Sangue escorria através dos dedos. O coração bate mais rápido quando apertado assim. Tentando bombear a mesma quantidade de sangue que sempre bombeia.
Sempre a luz vem e depois some, vem e depois some. Assim como o sol e sua natureza evitativa, quando estamos gostamos dele ele afunda no horizonte sem a mínima pena. Nunca gostamos dele quando é meio-dia, mas no fim de tarde, quando o céu está alaranjando, queremos que ele não vá. Que continue nos aquecendo. Mas então a lua fria e indiferente chega. Ele odiava sua frieza e sua luz pálida, que a lua nunca mais surja, pediu. O sol e lua poderiam se fundir um dia, eliminando a existência da escuridão, pediu mais.
A luz jorrou, como água quente e ardeu sua pele. O sol chegara, na sua fase insuportável, queria muita atenção, tudo era sobre ele nesses momentos. Se levantou e arrastou até o banheiro. Com receio, mirou o próprio reflexo no espelho. Gritou e ligou a torneira em um giro de pulsos, jogou água no rosto tentando acreditar não ter visto o que tinha visto. Semiabriu os olhos até sua silhueta ficar visível. Deveria ter sido um reflexo errado, algo atrás dele, qualquer coisa. Pensou, melhor esquecer o que vira. Logo deslizou isso da mente. Isso não era verdade! Não viu isso, óbvio que não viu! Isso é errado! Isso é certo! Não vai falar sobre isso com ninguém!
Vestiu-se com cuidado. Colocou seus sapatos com cuidado. Passou correndo pela cozinha com cuidado. Comeria qualquer coisa em qualquer lugar com cuidado, mas não comeria com ela. O bife ainda estava fresco em sua memória.
Apontou seu guarda-chuva verde-limão para as nuvens, tinha que tomar cuidado com os raios de sol. Ninguém gosta do sol nesse horário. Coitado dele. Mas sentia mais pena das flores no quintal da vizinha, Laura. Elas pareciam gritar de calor, se contorcer em dor, implorando por uma gota de chuva que não viria até semana que vem. Mas aguente firme, a noite já vem vindo. Alguns preferem a frieza da lua. Laura parecia ser sádica, plantava flores novas toda semana, nunca vira ela regando nenhuma, talvez ela gostasse de criar vida e depois deixar murchar e morrer. É o que escritores fazem quando desistem de algo na metade. Fica impossível reviver uma flor murcha e derretida pelo sol, jorre a quantidade de água que quiser, meu amigo!
Sentia.
Isso era algo que nunca contara para ninguém mesmo, era muito secreto sobre várias coisas. Ele mesmo não entendia porquê. Sentia: esse era seu segredo. Ele sentia. Sentia tudo. Mas seu sentir ia além do normal sentir, um sentir amaldiçoado. Um copo cair e se espatifar, se espalhar pelo assoalho, causava-lhe uma dor semelhante ao cair do décimo andar como um pacote flácido na calçada do saguão, gostava de imaginar ser o prédio onde trabalhava. O cortar do tomate era semelhante ao que acontece quando se deixa metade do corpo nos trilhos do trem. Nem descreveria o ato de amassar alho, descascar batatas, fritá-las, mordê-las.
Sentia os ferimentos dos outros como seu próprio.
Certo dia, João, seu colega de sala, um sujeito gordo e desajeitado, caiu de rosto na aula de Educação Física, tropeçara em falso sobre os próprios calcanhares, mas foi uma queda de verdade e estrondosa. Ambos foram para enfermaria gritando de dor cobrindo os rostos, um coberto de sangue e o outro não. Sentia os mesmos sentimentos exatos daquilo que ele se concentrava e presenciava. Mas acreditava que talvez não fosse mesmo isso. Ou poderia ser, nunca saberia com certeza. Pensou em ir em um médico, psiquiatra, alguém, já fora internado algumas vezes em que tentaram localizar o motivo de suas dores. Mas nunca disse o que acreditava ser a origem, óbvio que testariam de forma torturante ou colocariam seus braços em uma camisa de força, então ninguém sabia, nem mesmo sua esposa. Mas não poderia sentir o que nunca sentiu, no entanto, sua imaginação era criativa para inventar dores fortes ou sugestionável para assim criar dores com base em outras semelhantes em intensidade. Era sua teoria de sua própria condição e não teve escolha a não ser sentir dor por toda sua existência até ali. Na verdade, inventara um mecanismo, ao sentir dor de objetos, dor própria, dor de outros, se concentrava em outro algo que estivesse em paz, inerte, assim atingia o estado do que se concentrara e apagava sua dor, se tornava internamente inerte. Agora no ônibus mirando as ruas passarem rápido como vultos, poderia acabar se deixando levar pelo sentimento de ser pisoteado que os pedestres causam ao concreto das calçadas quentes pelo sol, sua pele rasgada pelas solas de sapato cheias de terra, sentir-se esmagado pelas rodas de borracha dos carros apressados, seus membros a se esmagar e se espalhar, mas… se concentrou na nuvem solitária. Que flutua. Desliza devagar. Seu corpo se esfumaçou.
Um freio brusco e bateu de testa no vidro da janela, assustou-se com seu próprio grito breve. Sentiu a primeira dor de si em tempos, que dor estranha, é diferente das outras de uma forma indescritível. Tentou se concentrar em alguém, algo, um objeto, o externo. Achou: uma mulher de pé vestida como uma professora reservada do ensino superior, provavelmente de bacharelado de literatura. Seus olhos castanho-escuros grandes e cansados de cílios longos estavam mirando além da janela, vidrados como se assistissem televisão. Ele concentrou-se nela:
“Contava casa por casa, pessoa por pessoa, procurava seu marido em cada homem, esperava seu ponto sem ansiedade. Sentiu que não queria descer, os fios dos dedos presos ao pega-mão. Não queria voltar para casa. O ônibus poderia andar em círculos pela cidade sem rumo por todas as ruas eternamente. Queria ficar sozinha de pé, mirando calçadas vazias. Não queria abrir a porta e ver onde ele descansava toda noite, a poltrona vazia, ainda com seu cheiro, lá ele ficava por minutos tirando a gravata lentamente, lendo avós de capítulos de seu livro favorito antes de dormir. Seus sapatos empoeirados ainda na soleira, lembrava quando dera-lhe de presente. Lembrava: do som de seus passos cansados pelo corredor; do abrir lento da porta para não acordá-la; do levantar calmo do lençol; de seu dormir em posição fetal. Por que seu marido não conversara com ela naquele dia? Por que não convidou-a para morrer juntos?”
Estava absorvendo-a — apertou o botão para descer daquele ônibus, não percebeu que esquecera seu guarda-chuva no assento. Estava chorando muito, viu a mulher melancólica mirar-lhe com um olhar semicerrado, a boca dela uma linha apática branca desaprovativa. Ele desceu pelos degraus com passos atrapalhados, pensou que a mulher não havia de saber que havia causado isso ou quem ele era ou de seu poder, isso mesmo, estava-lhe julgando seu colapso?
Mergulho no sol embaralhado intenso e fugaz, quente e doloroso como um feixe de lanterna lançado nos olhos de quem viu apenas escuridão por dias inteiros. Tateou o ar, procurando um apoio, sentiu seu pulso ser apertado muito firmemente. Cinco dedos quentes de alguém que estava esperando ali. Resistiu ser puxado para um lugar que não sabia qual, por quem ele não tinha certeza saber quem era.
Não sabia nem quem a si mesmo era. Deveria ter descido antes, deveria ter terminado com Isis no primeiro sinal, quando sentiu ela pela primeira vez. Não deveria ter comido nada do que ela servira-lhe nos dolorosos anos de casamento. Cada dor dela, não deveria ter sentido. Deveria ter terminado quando sentiu tanto frio ao mergulhar nos olhos dela. O afogar no mar escuro do inverno, apertando seus músculos, não podendo assim nadar, apenas engolir água e afundar, mais e mais. Queria fugir do que o estava segurando nos pulsos.
Colocou peso nos pés com força, para não sair mais do lugar, se impondo. Quem estava puxando-lhe parou, mas não largou-lhe. A cacofonia de luzes e cores diminuiu, viu uma árvore, estava no parque, viu o gramado verde, era o parque do primeiro encontro, viu o vestido azul dela, ela estava bela, viu o rosto de Isis. Estava vazio. Sem olhos, sem boca, sem nariz. Sentiu o vazio, não sentiu nada. Era mesmo ela? Ou era… o que tinha visto no espelho mais cedo. As unhas esmaltadas com decorações de sois amarelos em fundo azul-marinho eram dela, o anel de casamento estava lá. Era ela.
Isis tentou voltar a puxar-lhe para algum lugar, para o fundo do parque provavelmente, onde se beijaram pela primeira vez. Mas continuou se esforçando para continuar no mesmo lugar. O braço de Isis que o puxava começou a se esticar, sua pele se abrir, sangue escorrer, ela continuou tentando o puxar, seu braço se alongou como borracha. A dor era ignorável, pois se concentrou no vazio. Ela era, no fim, vazia. Não importa o quanto tentasse ser alguma coisa, ela não era nada. Ele criou ela. Concentrou-se, mas não nela, na imagem paralela dela, na idealização:
“Da torre branca de marfim arborizada em musgo escuro para a aberta janela. Seus cabelos castanho-escuros derramaram sua colorida e sentimental aquarela. Há de derreter em paixão somente o mirar em seu sorriso de dentes brancos. A destoar da totalidade da obra, seu rosto fora esculpido em pedra pálida por arcanjos. Princesa com sua eternidade cristalizada em seu olho de cores molhadas. Cisnes passeavam na superfície desse aquário verde-escuro de lágrimas afiadas. Delicada como vidro de porcelana fina feito em fria chama. Mas detalhada como múltiplos caminhos de um estreito labirinto. O verdadeiro sentir por si gerado no estado e forma desse eterno enigma. Continuar a lhe acompanhar convida ao sentir único elevado ao amor infinito.”
Isis desistiu e largou de seu pulso.
Ele sentiu alívio, estava livre.
Ela curvou a cabeça escondendo seu rosto com seus cabelos. Percebeu que o sol estava cinzento e moribundo, de certa forma morrendo. Sabia antes que choveria, uma gota de chuva caiu na calçada. Ela levantou o rosto dentre seus cabelos. Ele sentiu que esquecera de algo, sentiu que faltava algo. Agora ela tinha olhos, boca e nariz, mas seu rosto estava de mesmo com expressão vazia. Estava sendo autêntica, era isso que realmente sentia e queria expressar. Uma gota caiu direto em sua testa e derreteu-a, como ácido, expondo sangue e carne. Isis não expressou dor. Sua expressão não mudou. Outra caiu no seu olho direito, em seus cabelos, nariz, vestido. Estava deixando derreter-se lentamente. Era uma despedida, ele não veria o resto de seu derreter. Era de fato, delicada como porcelana.
Ele pegou o próximo ônibus, com destino desconhecido, mas com possibilidades infinitas.