capítulo 5

Triângulo

Mesmo as águas das poças brilhavam forte. O sol perfurava com seu branco na carne do desavisado. A luz normalmente é associada com calor, alegria ou esperança. Para ele, naquela situação era o contraste disso. As palavras dolorosas e apáticas que acabara de escutar da boca seca de lábios pálidos, outrora vívidos e molhados, ainda a reverberar nas nuvens do seu pensamento como agulhas que penetravam nas suas memórias românticas luminosas, apagando-as como se murchassem lentamente em escuridão semântica. Palavras em forma pontiagudas, dolorosas e ásperas que esperava jamais ouvir ou ver, aquele olhar grande e castanho-escuro era seco e vazio. Apatia é o verdadeiro antônimo. Não pensava que ela estivesse mesmo agindo daquela forma por escolha própria, era apenas a linha do destino usando-a como ferramenta, como ela é cruel. Assim como isso ter acontecido em um dia tão ensolarado, se ele fosse apostar, algo como aquilo combinaria com uma cena dramática de chuva forte, os dois com guarda-chuvas negros que pouco os protegeria dos respingos da melancolia da natureza. Estava cego, a luz era muito forte, tudo estava se misturando.

Um ponto de escuridão no fim do túnel interrompeu sua caminhada cambaleante e difusa, do meio a calçada, vindo de um terreno com gramado alto verde-folha, fresco pela recente chuva, uma forma negra sorria. Ele mesmo nunca sorria, era até conhecido por isso, não importava o que acontecesse, ele nunca havia sorrido, tentaram forçar inúmeras vezes, mas a mera tentativa fazia com ele chorasse um choro intenso sem qualquer motivo. Nenhum terapeuta chegou na causa. Era algo que sempre afastou as pessoas, menos ela. Mas aquele gato, aquela massa negra de pelos, parecia estar reunindo todos seus sorrisos não dados em uma fusão de dentes afiados, um sorriso arqueado muito grande e estranho. Era a coisa mais fofa do mundo. Era a linha do destino em forma de sorriso.

Ele corria por toda casa, alegre. Uma casa cheia de objetos é bem mais empolgante do que um gramado molhado. E sua nova cama de travesseiros era mais confortável. Deu-lhe leite ao cair da noite, o negro nas janelas aumentou algo dentro dele. Precisava dormir, foi um dia cheio. Pensava, aquele gato não estava ali por acaso. Nada estava. Quando estava aconchegado e com os olhos semiabertos, sentiu algo deslizar pelas suas pernas, o gato havia perseguido ele e provavelmente ficou lutando pra subir até ali. O deslize terminou nas suas mãos, o pequeno gato grudou no seu dedo indicador e mordeu-o carinhosamente, os bracinhos fechados em um abraço. Ele pensa que eu sou a mamãe dele, sorriu até que os sonhos roubaram-lhe a realidade.

Chuva.

Gotas.

Grama misturada ao barro, o marrom.

Ele acertou uma bola de lama em seu rosto sorridente, pálido e gelado, ela acertou-lhe de volta, mas ele não sorria. Se grudaram em uma briga boba, se abraçando em meio a chuva, o gargalhar dela misturava-se ao chiar do vento, folhas, vez ou outra, a lhe acertar o cabelo negro que voava descontroladamente de um lado ao outro. Rolaram para o chão, a gargalhada aumentou, era mais alto que o vento. O calor do seu corpo o aquecia em meio ao barro gelado, logo capotaram, desengonçados, grama abaixo. Sem vontade de o fazer, estavam com os lábios misturados entre si, em sintonia, sentia o gosto da grama e barro em meio a saliva, a língua dela estava molhada e tinha gosto de morango, afinal havia comido alguns no piquenique. A vontade não existia, era o destino. Ficaram nessa posição por minutos, mas a chuva parou. Ela estava estupefata e corada, saiu de cima dele envergonhada, deitando-se ao seu lado, sem dizer uma palavra sequer. Ela se curvou um pouco e puxou seu dedo indicador da mão direita, levou-o até seus lábios e mordeu-o carinhosamente. E continuou mordendo e mordendo. Dor e prazer. Sua mordida ficava cada vez mais forte. Iria arrancar metade de seu dedo com os dentes, expondo sua carne, vermelho-escuro escorria em descontrole até o gramado. Pintando-o de vermelho. Muito vermelho, não mais tão escuro já que brilhava com os feixes de sol pós-chuva. Era romântico.

Abriu a boca, mas nada saiu.

Som algum.

Mas, acordou aos gritos, o gato mordera-o mais forte do que deveria, fazendo-o acordar, um fio de sangue escorria timidamente na ponta de seu indicador. O gato ficou assustado com o acordar abrupto de seu hospedeiro, mas com um simples carinho, reabriu seu sorriso habitual, agora levemente vermelho e seus olhinhos cerraram até sumir, esqueceu de voltar a morder. Sentiu que amava aquela criatura muito, demasiado, em excesso, muitíssimo. Todos seus sentimentos por ela se reuniram em uma bola e pousaram em sua consciência na forma daquela criatura dorminhoca fofinha. O meio de sua consciência, sabia era somente luz, tão clara que queimava quem tentasse entrar em contato, mas era ali mesmo que tudo estava. Esse amor estava cavando um buraco profundo até esse universo de luz, estava tão fundo que seria difícil tirá-lo de lá agora, essa bola negra agora não era mais tão escura, se fundira a luz. Mas não se tornara luz, tampouco escuridão. Era a intersecção indefinida entre, incompreensível. Era tão intenso que poderia pegar uma faca bem afiada, colocar no topo de seu busto, abri-lo, jorrar espalhafatosamente suas entranhas sobre a criatura, uma cachoeira de sangue molhado. O vermelho é a cor que melhor representa o amor, seu dedo em vermelho não era obra do acaso.

O nascer do sol jorrou pelas janelas a toda, o sol estava de tom avermelhado e estava com raiva, como uma mira de lanterna acertou os olhinhos fechados do gato, que logo acordou, confuso. Tinha uma expressão estranha. Se prostrou de quatro e parecia tremer, como se quisesse cuspir algo, mexia o pescoço para frente, grunhindo estranhamente. Tossiu alto, sobre o lençol surgiu uma bola de pelos negros, molhada de saliva, úmida. A esfera parecia pulsar, respirava, sim, estava viva. Pequenas patas surgiram em sua base e logo uma pequena cabeça se revelou, os olhos vermelhos muito escuros, sem clara. Era uma vida. Sempre acreditou já ter morrido, quando nasceu, estava antes morto, a morte é simplesmente a não-existência, o nulo. Não sentir ou pensar é morrer em definição. Sua vida nada mais era que um breve pesadelo noturno, um descanso da morte para depois retornar para ela. Por isso nunca sorria, não tinha porque se alegrar com nada que a vida possa oferecer se tudo é efêmero, um pesadelo com felizmente data para acabar, aniversários nada mais são que uma contagem regressiva. É claro, o pesadelo havia tomado forma concreta e tinha vindo se deitar ao seu lençol, estava agora abraçado carinhosamente ao seu gato em conchinha, ronronando. Ambos olharam para ele ao mesmo tempo com o mesmo sorriso, que gatos não deveriam conseguir fazer.

Quando voltou de seu trabalho, o dia tinha sido cansativo, estava muito calor, o suor escorria pela ponta de seu nariz, uma gota dele caiu sobre sua chave que abria a porta da frente, seu sal se misturou ao feixe do sol amarelo-avermelhado de fim de tarde. Onde estavam seus gatinhos, chamou-os de novo e de novo, só o menor surgiu, caminhando lentamente, o rosto vazio. Onde estava o outro, indagou para ele, que só respondeu-lhe com um sorriso maléfico, gatos não entendem palavras, óbvio. Não estava embaixo da pia. Onde estava. Não estava entre as almofadas empoeiradas do sofá. Onde estava, onde estava. Tampouco estava atrás da televisão de tubo há muito desligada. Onde estava, porra. Claramente dentro da lareira, em meio às cinzas, ele não estaria. Então onde estava. Embaixo de sua cama, em meio aos lençóis. Ora, não estava em lugar algum. Não estava. Sentiu-se abandonado novamente. Arfava, arfava pavorosamente, o suor aumentava, agarrou as unhas nas costas em um abraço de desespero, precisava gritar, precisava saltar pela janela. Sentiu cócegas nas pernas, o pequeno gato se acariciava nelas. Ele sabe como estou me sentindo. Sentiu algo sair dele e pular pela janela, sua calma voltou, junto com o vazio da noite que escureceu a sala lentamente. Deitou-se em posição fetal entre os sofás, o gatinho se deitou em caracol junto às suas costas. Não se sentia sozinho.

A luz do sol era negra.

Contraditória.

Parecia iluminar mais o ambiente, mas, também, não.

Estava com as pernas em xis, a posição da meditação, preparado para o ritual.

Os sofás estavam na forma de um triângulo perfeito, o gato no centro, dormindo.

Vários gatos de pelos brancos como neve estavam de costas nos braços do sofá.

Olhavam diretamente para as janelas, como se quisessem saltar por elas.

Quando o pequeno gato acordou assustado, todos se viraram de abrupto para ele.

Todos sorriam abertamente, menos ele. Os raios atravessavam por eles.

O gato negro atraia a luz, ou, estava sendo sugado pela luz.

Chiava de dor aguda.

Os gatos brancos começaram a balançar roboticamente de um lado ao outro, os gritos.

Os pelos do pequeno gato perderam suas cores, embranqueceram perdendo a vida.

Sua pele rosada foi se expondo enquanto seus pelos desfaziam-se aos ventos.

O vermelho-claro de seus músculos se mostraram vívidos em dor.

Era então somente um esqueleto desfeito em pó, absorvido pela ceita.

Continuavam a sorrir.

A luz escura brilhava.

Acordou, estava em sua cama. Não sabia como fora parar ali, não sabia quase quem era. A janela apresentava um céu nublado cinza-escuro. Quase sem luz era o clima perfeito. O ar estava frio, mas não sentia frio no corpo. O aperto forte de um abraço aquecia-o. A primeira coisa que viu foi seu sorriso branco, o cheiro de seu hálito de morango esquentava seu rosto. Seus narizes se encontravam delicadamente, ao encontrar seus olhos com os dela sentiu-se mergulhar na cor castanha-escura, não mais seca, era molhada. Suas peles se completavam. Quando moveu seus lábios para dizer algo, ela lhe calou com o dedo indicador, frio. Ela queria que ele o mordesse, pediu-lhe o mesmo. Uma gota, outra gota, gotas vermelhas. O lençol se banhava. Estavam se absorvendo em meio a poça vermelha, ela sorria, ele não. O abraço forte uniu-os em uma só forma, como um abraço de duas formas de barro marrom. A carne marrom derreteu para se fundir, não era importante. O barro era sangue.

Vestiu-se, seria um dia cheio, não importava qual roupa, apenas vestiu-se. As nuvens sumiam com o sol, se é que ele realmente existia ainda. Existir, talvez nem o motorista do seu ônibus existia, afinal ele estava escondido pela plataforma de vidro da cabine como as nuvens escondiam o sol, mesmo o sol sendo o protagonista do céu. Não tinha mais ninguém nas ruas ou nos bancos duros do ônibus, estava sozinho, mas não se sentia sozinho. Algo dentro dele brilhava escuro como o sol. Borbulhava. Não era efêmero. Talvez fosse seu aniversário hoje, mas não saberia dizer, nunca sentiu o tempo em estado estático.

Viu de relance pessoas, estavam de costas de pé sobre gramados verde-folha, muito próximas do meio-fio, as mãos entrelaçadas entre si. Eram uma união. O ônibus parou de abrupto, os pneus gritaram. As portas se abriram em uníssono barulhento. Ele desceu, estava em uma encruzilhada triangular, haviam pessoas de mãos dadas em todas as direções. O ônibus seguiu em frente em direção à ponta do triângulo, também assumindo a forma de um até desaparecer. As pessoas começaram a balançar de um lado ao outro e gotas começaram a despencar. Uma chuva de sangue rompia somente na área do triângulos. As roupas brancas gota por gota respingadas tornaram-se escarlates, sanguíneas. Todos se viraram em direção ao protagonista, que derretia com um sorriso aberto, cada gota exibindo mais de sua carne. Juntaram-se no centro, a união o fez sumir em meio às vestes esvoaçantes pela chuva. Seu primeiro sorriso se escondeu.

Todos sorriam.