六 capítulo 6
Construção
O verde se espalhava, cristalino, pulsando junto às algas que dançavam com a maré calma e fresca, fria de agulhar. Essas algas eram todas conectadas como uma teia verde-clara de folhas, da qual mantinham a mesma consciência, elogiando-se e sentindo-se unidade. Entre elas existia um sentimento coletivo, aquilo era transparente e quente, mas sem forma física. Esse sentimento tornava a divisão entre ar, água e vegetação marítima em irrisória, quase eram uma coisa só. Um conjunto. A paisagem molhada era gigantesca, global e redonda. Essa ilha verde-cristalina vista do alto era perfeitamente circular como um planeta. Mais alto ainda, percebia-se que essa ilha parecia se posicionar no centro, como se fosse a íris de um globo de água olhando diretamente para além do céu, suas águas refletiam as nuvens brancas por todo o entorno. Mas o olho fechou suas pálpebras, mergulhando em meditação. Sumiu, todas suas paisagens mentais desfizeram-se como fumaça.
Ao abrir novamente, estava enfim na realidade, no real. Seus olhos afundavam em seu rosto apático e pálido, refletido através do vidro azul translúcido, era a janela do vintagésimo andar de um arranha-céu comercial. Como odiava aquele prédio e quem estava dentro dele. Ele estava pendurado por cordões de segurança agarrados ao seu colete, o abismo acrofóbico se exibiria se tivesse coragem para olhar para as pontas dos dedos de seus pés. Aquele mísero capacete laranja não protegeria sua cabeça da queda, então por que usava-o para início de questionamento. Seus olhos pareciam refletir o mesmo abismo abaixo, não evitava o próprio reflexo mais, decidiu encarar o próprio demônio de frente. Tal demônio com braços duros como troncos escuros, cabelos espalhados como folhas em galhos, olhos verdes como frutos recém-nascidos.
Olhar para os próprios olhos fez-lhe tomar consciência de sua mão e, voltou sem notar, a levar o rodo de um lado ao outro em conjunto com esguichos de sabão, pensando em como seria ter braços de tronco, talvez pesariam menos, pois após horas do mesmo movimento seus braços pareciam com toneladas de concreto. Ainda assim, o movimento repetitivo já era tão automático que poderia viajar em ilhas dentro de si enquanto o fazia, uma viagem, no entanto, apática como seu olhar verde, e pretensiosamente muda. Já que os sons do fundo do abismo — o burburinho de buzinas, gritos de trânsito, conversas tão embaralhadas que quase eram apenas barulho irritantes, zumbidos — já o perturbavam o dia todo. Só queria o simples silêncio pelo menos dentro de si. Mas, ao perceber o silêncio, as águas verdes que imaginava agora tinham sons insuportáveis de pneus derrapando em suas ondas, mesmo as nuvens da ilha eram barulhentas como britadeiras raivosas enquanto chovia, evento, no entanto, raro, por isso as plantas clamavam por socorro perto de sua morte por falta de água da chuva, assim como os frutos ao cair de suas árvores agonizavam ao se espatifar em gritos muito agudos.
Acordou de sobressalto, ouviu um estralo metálico estranho acima dele, como o desconectar de algo. Seu colega o olhava lá do alto e parecia sorrir. No que estaria pensando, pensou que também queria pensar, os sons impediam o de pensar em algo como o que o colega pensava. O que o colega desconectou era o colete, estava livre no ar, dependendo de nada além do próprio nada. Por isso o rosto alegre, ora, fazia sentido agora. Seguiu sua trajetória, passou rápido ao seu lado como um vulto de uniforme laranja, os cordões de segurança dele se soltaram e se chocaram contras as janelas, solitários e leves, sem ninguém para segurar mais. Sem asas ele não poderia voar, o que estava pensando então, com os braços abertos em cruz o homem descia em direção ao abismo, decidido. Quanta coragem, poucos encaram o abismo de frente, poucos menos ainda mergulham nele com a própria essência e corpo.
Uma memória veio-lhe de repente. Nos aniversários, seu supervisor corpulento deixava um balão de hélio flutuando no refeitório, a cor de fato variava, ninguém cantava parabéns ou nada mais, somente sentavam quietos em suas mesas e comiam, observando o balão flutuar de um lado ao outro melancolicamente. Como se ele fosse o pêndulo do tempo lembrando de sua inevitabilidade. Mas esse colega ficava especialmente feliz quando era sua vez de ter seu próprio balão, era vermelho e completamente redondo. Sorriu o dia inteiro, um sorriso entre aqueles homens cansados causava estranheza e desconfiança. No dia seguinte, esse mesmo colega, ainda sorridente, trouxe um balão cheio d’água gelada, carregando-o junto a si como um filho, para, no fim, jogá-lo abismo abaixo assim que começou seu turno nas alturas, não se sabe se foi intencional ou não. Nesse dia, lembrou agora, seus cabelos louros balançavam com a brisa melancólica que fazia, seu olhar fixaram-se diretamente onde o balão se destruiu por minutos, sem dizer nada, continuou observando o seu colega de longe, curioso. Dramaticamente, o sorriso dele lentamente se desfez e nunca mais voltou, nem um fagulha. Desde então, aquele colega sempre o fascinava, ele era um artista, queria sempre ficar embaixo d’ele, esperando ansiosamente ser acertado por um balão de água gélida. Ser acertado por uma obra-prima. Assim quem sabe sentiria algo.
Voltou para a cena, para o show final. Ainda lembrava do sentimento e vislumbre do passar do vulto por suas costas, indecifrável e frio. Um borrão que desenhava um trajetória linear vertical. Uma linha traçada nos reflexos das janelas recém-limpas de forma íngreme. Chegou ao seu destino determinista, o balão de carne e ossos jorrou sua água verde-cristalina sobre a calçada espalhafatosamente para todos os lados, os sons da cidade pararam por breve com o som do estouro, todos olhavam direto para a calçada molhada. Era uma pintura moderna em um museu renomado, as cores e natureza irruptiva assustavam. Oh, a tão odiada arte contemporânea. Desde quando uma banana com fita isolante é arte? Uma vez disse um bigodudo. Silêncio, finalmente silêncio, obrigado silêncio. Uma música para os ouvidos, não sabia que ele era músico também. O ato final chegara, sentiu paz, vazia, mas calma, também breve. Provavelmente era o que almejava que a plateia sentisse. A música logo fora interrompida em um trovejo de gritos femininos por todos os lados, uma cena de tragédia grega bem encenada, um coro uníssono de medo. Esmagou-se a paz com violência barulhenta, espalhando-a como se também estourara em um balão de água gélida.
A sensação era como se aquele balão de tamanho e peso humano tivesse também caído diretamente sobre ele. Respirar não adiantava, estava sufocando. Sentia o rosto ficar verde pela falta de ar, seu pulmão cheio do líquido do balão, pronto para explodir igualmente. Olhar para baixo era algo que sempre evitava, agora entendia por quê. Sentiu vontade de vomitar, mas não o fez pois seu estômago estava vazio. Percebeu que sentia aflição pela altura, o prédio parecia gradativamente ficar mais alto e balançar, junto à sua sensação de vazio interno doloroso que parecia tão profunda quanto a distância entre ele e o térreo onde os pedestres se reuniam para tirar fotos da obra-prima. Em tese, o vazio não deveria doer, então por que doía, afinal. Que obra de arte, meus amigos.
Estava balançando, estava girando, não tinha como arfar. Desespero louco. Confusão. Não dava para gritar, a pressão do ar estava prendendo-o em uma caixa de vácuo. Tirou os olhos das calçadas e os levantou, tentou olhar para o próprio reflexo para se certificar de que ainda existia fisicamente. Aquilo que era ele, aquela figura patética pálida com olhar fundo. Aquilo. Isso. Encostou a mão no vidro, era frio, as nuvens cinzas refletiam lá caminhando devagar, o sol branco se escondia nelas. Ao se encontrar com o céu, sentiu lentamente o ar voltar, um alívio quente subiu pelas suas pernas e entrou por sua boca, cuspiu a água fria dos pulmões no vidro das janelas.
Escutou algo farfalhar.
Um bater de asas, era pequeno e estava vindo em sua direção. Era para ser impossível em alturas elevadas, como aquilo estava ali. Aquilo realmente existia? Era uma borboleta, suas asas pareciam ter olhos verdes desenhados à tinta. Ela pousou em sua bochecha, suas asas cobriram um de seus olhos, perfeitamente para parecer que seu olho direto estava estampado na asa direita dela. Ela caminhou com suas patas minúsculas da sua bochecha até a ponta de seu nariz, se ela abrisse as asas naquele instante pareceria que ambos os olhos das asas dela eram dele. Ela encolheu e parecia descer em direção à sua narina, iria entrar pelo buraco esquerdo de seu nariz. Não conseguiu se mexer para impedir, os braços ainda pesavam como concreto após os movimentos repetitivos. O entrar dela sequer doeu. Estava alucinando. Mas nunca saberia, sua vida toda poderia ter sido uma mera alucinação até onde tinha certeza.
Só existia o incerto absurdo.
Sentia ela dentro de sua cabeça, completamente aberta e colorida. Potencial ilimitado, ideias infinitas, cor em quintessência. Atrás de suas íris, dentre a clara branca, algo se movimentava, um mover de asas delicadas contrastantes com linhas formando uma teia de enfeites dourados brilhantes. Um bater de asas. A borboleta embaralhou sua consciência, tudo tremeu por milésimos de segundos em assustadora desordem. Um novo bater de asas. Gritou. Não era dor o que sentia, era medo. Um novo bater de asas. O medo aumentou, lágrimas escorreram, vermelhas. Um novo bater de asas. Desespero, imensurável desespero, gritar não representaria o sentimento. Um novo bater de asas. Fora de si, caminhou três passos para trás na plataforma mirando ir de rosto direto com a janela de vidro, seria o fim da borboleta. Bater de asas. Precipitou-se em violenta vontade no vidro, de novo, novamente, mais uma vez e por fim. Seu rosto banhou-se em vermelho. Sangue escorreu e pintou o vidro danificado em requintadas linhas, menos aleatórias do que deveria. Caiu de costas em um baque surdo, suspirava, o rosto semidesfigurado em vermelho escuro, torto, em desespero choroso. Não houve um novo bater de asas. Sorriu, o céu estava mergulhado em pequenas gotas de vermelho aqui e ali, embaçado, suas vistas estavam machucadas artisticamente.
Estrondos. Outras pessoas faziam o mesmo, seus rostos a se encontrar com força em cada janela de cada andar, trincar de vidro a cada nota tocada, estilhaços voavam como confetes. Era uma melodia cacofônica, orquestrada por ele, veja só, um espetáculo. As janelas se partiram em intervalos diferentes e os músicos se lançaram ao abismo em união ritmada. Gritavam como cantores de ópera de um peça trágica em seu ato final, era o momento de provarem seu talento ou morrerem. A arte no fim é isso, há sempre o ato final. Houveram cortinas vermelhas para cada um. Esse vermelho a se espalhar pelas calçadas e asfaltos, por que você cobre o que não gosta com uma cortina? Um mar se formava, medonho, mas belo e pulsante, sem ondas. Pensou ser exatamente assim o mar do reino de Hades, onde Caronte navega em seu barco modesto. O mar subia, estava imergindo andar por andar devagar, cobrindo-os, pintando seus vidros e entrando por suas fendas de cacos.
Chegou nele. Ele estava flutuando na maré vermelha, o cheiro de ferro e o gosto era salgado e quente. Deixou-se afundar. Sentiu o calor do sangue abraçar seus olhos e roubar-lhes a luz. O sangue esquentava. O amor tomará forma e estava o derretendo, não sentia mais qualquer parte de seu corpo. Estava vazio. Até não estar mais. Sentia algo, sólido nas suas costas. Mas confortável como lençóis de areia. Estava escuro, a maré desceu. O mar no horizonte era vermelho, um espelho vermelho com ondas. O céu azul escuríssimo. Estava em uma praia. Deitava-se reto, os braços abertos e imóveis na areia, mirando tão somente o céu. A lua estava muito perto, era quase o céu inteiro, sua luz branca iluminava as areias. Ela estava absorvendo seus olhos, não se via sua íris. Ardia em branco.
A lua se inclinou para o horizonte e começou a descer, parte do céu reapareceu, escura, sem nuvens. Acompanhou seu movimento com o pescoço, sua bochecha esquerda se sujou de areia. A lua afundava no mar, mas a maré não subia, permaneceu intacta. A lua parecia menor do que deveria, sua luz se apagava nas águas. Sentiu sua bochecha afundava, seu rosto afundava, assim como a lua no mar. A areia entrou dolorosamente em seu rosto esquerdo e em sua narina esquerda. Metade do seu corpo estava na areia. Fechou seu olho direito em desespero. A luz sumiu.
Abriu as pálpebras, tudo estava em desfoque, embaçado, como vidro sujo pelo vapor. Estava em uma cama não muito confortável, não muito rígida. Sentia algo em seu braço direito, injetando líquido em suas veias. O vapor lentamente sumia, alguém deveria estar limpando a janela. Um teto branco se exibia, uma luz em tubo piscava a cada dois minutos, sua luz oscilando. No entanto, algo estava diferente. Metade faltava. Uma borboleta escura não saia da frente de seu olho esquerdo, imóvel. Era de um escuro avermelhado, como sangue seco. Não conseguiu mover seus braços para tira-la. Gritou fracamente, como se grita em um pesadelo. Ouviu passos acelerados e uma porta se abrir, para depois se fechar novamente. Sua respiração arquejava em ansiedade, estava em um hospital.
— O senhor dormiu por 37 dias inteiros. — Disse uma voz profissional que intuiu ser de um médico. — Seu olho esquerdo foi penetrado por um fragmento de vidro de forma severa e o senhor passou por cirurgia. Receio que as chances de sua visão voltar são quase…
— Tire… a… borboleta… — Suspirou, implorando.
— Borboleta? — Espantou-se. — Ficamos de fato intrigados com o formato peculiar de seu cérebro. Lembra mesmo uma borboleta suas massas na nossa tomografia. Mas não há nada de errado, em geral.
— Ela está… no meu olho…
— Bem… — O médico ignorou. — Seus braços precisam de um descanso de um mês, comunicaremos sua empresa. Poderá passar esse período em casa ou aqui. Como o senhor não tem parentes ou alguém próximo, pedimos que nos diga o que deseja.
— Em… casa… — A borboleta negra bateu suas asas, mas não voou.
As janelas estavam fechadas, toda a luz que havia eram fracas e em pequenas linhas, vindas das frestas estreitas da janela. Conseguia movimentar seus braços o suficiente para beber um copo de água, mas isso lhe custava minutos de dor. Assim como girar a maçaneta do banheiro. Deixou-se afundar em seus lençóis escuros de suor e poeira. Chorar doeria seu olho esquerdo, quando chorara, metades de suas lágrimas eram vermelhas, desciam com dor por trás das gazes em seu olho esquerdo. O fato de ter chorado em dor pelo menos uma vez por dia na última semana, fez com que seu olho esquerdo sangrasse na gaze e criasse um circulo desforme vermelho-escuro. Mas não trocou-a.
Sentiu que a borboleta negra continuava lá.
Tentou sentar-se e tornou a mirar sua máquina de escrever, nunca usada. Fazia o mesmo todo dia, observava a máquina no escuro, com medo de mais para escrever uma palavra. Mas hoje se arrastou até o pequeno banco dela e posicionou suas mãos nela. Escrever doeria como uma facada lenta em cada palavra. Apertou as teclas com força. Escreveu uma frase desconexa. Dor. Chorou em sangue. Mas continuou escrevendo. Seria esse agora seu novo movimento repetitivo. Escreveria até seus dedos ficarem em carne viva. Até seu teclado ficar completamente ensanguentado. Levantar um copo de água não era nada agora. A dor deixou de ser algo de que evitava, agora apreciava-a. Seus dedos sangravam.
Ouviu passou abafados entre os sons de tecla e seus gemidos de dor. Atrás de si, uma figura expelia a luz da lua. Possuía asas e seus cabelos castanho-claros estavam presos em coque. Seus olhos verdes como os gramados do paraíso o incentivavam a continuar, brilhavam. Enquanto continuava sua autodestruição, sentiu-se abraçado. A luz era quente.