二 capítulo 2
Perfeito
Acordou 7 em ponto, deslizou com os pés direto em seu chinelo confortável, que esperava sob os pés da cama. Caminhou rapidamente em direção a cozinha, preparou o mesmo leite sem nata e sem açúcar e torrada integral quase sem sabor ou casca, não gastou nisso mais do que dois minutos, muito menos deixou qualquer resquício de sujeira sobre a mesa ou louça suja fora da prateleira organizada. Muito menos gastou mais água ou sabão necessários para que o prato e o copo fossem lavados. Seu banho moderadamente quente, para não afetar sua pele, durou somente o preciso, sua roupa que havia sido passada em ferro a vapor na noite anterior, encaixou como uma luva. Fazia questão de trocar as roupas para sempre estarem do seu tamanho e não sobrar ou faltar pano.
Odiava qualquer tipo de imperfeição. Sendo assim, o fato de si próprio ser imperfeito o irritava. Da janela de seu carro, espiava com desprezo quem por seu carro passava nas calçadas. Pecadores. Todos nojentos, o ar precisava de uma limpeza. Estava sujo e poluído com o cheiro fétido vindo de fora. Sentia uma ânsia de justiça, no seu âmago borbulhava um desejo ardente de limpar grande parte dos pecadores das calçadas com algum poder sobrenatural, como um juiz divino. Mesmo que ele não tenha visto-os cometendo qualquer crime, sabia bem do potencial humano inerente. Mas ele não possuía tal poder, então se contentava com a idealização mental impossível. Mas bem que uma chuva ácida poderia cair sobre toda essa imundície. Suspirou.
“Você sabe que esse seu desejo homicida te torna tão ruim quanto eles, não finja que não percebe” disse uma voz interior. Sentiu-se horrível, aquilo estava certo, ele era pior que eles. Pensou em uma punição adequada para si mesmo. Falaria com seus colegas de trabalho, da qual sentia aversão e sempre evitava nos corredores, hoje ele seria cordial com eles como punição. E não sentiria mais nenhum desejo homicida. Promessas vazias, uma vez que esses demônios fazem parte de quem ele é, não se livraria deles com essa simples punição. Embora, em seu interior essa raiva ressoasse violenta, para os outros ele sempre pareceu calmo e centrado. Um homem organizado que nunca se atrasava.
— Chegou cedo como sempre!
— Errado, cheguei trinta segundos atrasado no dia de hoje.
— Você é certinho demais, deveria tentar se divertir, o que faz nos fins de semana?
— Finais de semana servem para faxina semanal e organizar os arquivos remanentes da semana, tem também meus exames médicos.
Seus colegas lhe olhavam com estranheza, embora ele fosse muito profissional, sentiam que era um sujeito muito egocêntrico. Mal sabia ele, que eles também fingiam cordialidade e também não gostavam de sua presença, muito menos das interações que por vezes tinham.
— Isso parece divertido, — mentiu um dos colegas — mas você não bebe um pouco nesse meio tempo?
— Não, bebidas alcoólicas afetam a capacidade cognitiva do indivíduo e prezo por minha saúde — disse ele sem perceber a prepotência em suas palavras. Houve um silêncio estranho novamente.
— O que houve com a sua camisa? — Disse outro colega.
As palavras anteriores ecoaram pela sua consciência como se borbulhassem, o que poderia estar de errado com sua camisa. Não queria sequer saber, mas tinha que saber. Desceu os olhos e viu uma pequena mancha escura preta-amarronzada com olhos trêmulos. Café, mas como? Quase berrou. Os colegas o observavam ter essa crise de nervos curiosos. Ignorando tudo, deslizou rapidamente pelo corredor branco em direção ao banheiro. Empurrou a porta e se jogou na frente do primeiro espelho, o menos embaçado pelo vapor que saía esporadicamente das torneiras quando sua água quente borbulhante é expelida. Ele sabia que a primeira torneira não possuía água quente por defeito e isso fazia com que seu espelho não fosse embaçado, único defeito que ele tolerava. Mas uma camisa manchada era para ele quase como o fim do mundo.
Nunca considerara que tal coisa poderia acontecer, não iria conseguir ficar o dia todo com uma camisa naquele estado nojento, imundo, horrível. Melancólico e irritado consigo mesmo, tirou os olhos do espelho, mas sequer olhara para o próprio rosto, suas feições eram imperfeitas e não sentia que algum cirurgião plástico poderia consertar. Então só evitava o próprio olhar, não pousava também para fotos ou tinha alguma de seu rosto em qualquer lugar.
— Só queria que tudo fosse perfeito — o queixo apoiado no joelho em posição fetal, balançava de um lado ao outro no piso branco frio. — Eu desisto. Eu desisto. Eu desisto. Eu desisto. Eu desisto. Eu desisto. Eu desisto. Eu desisto. — Lágrimas escorreram pela sua bochecha.
Os espelhos se encheram de escuridão, que não era negra, mas sim de cor alguma, vazia. Como se ela fosse liquefeita transbordou para as paredes adjacentes e logo começou a deslizar pela porcelana branca como uma praga. Entreolhou isso pensando ser um sonho. Explicaria a mancha em sua camisa afinal, tudo havia sido um grande pesadelo. Enquanto pensava isso, a escuridão absoluta inundou tudo e não havia mais qualquer objeto visível ao redor. Se levantou, estranhamente não estava assustado e sua melancolia se esvaiu.
Tocou no piso. Era sólido, mas ao mesmo tempo, não. Se questionou como se mantinha em pé dada a natureza estranha daquilo. O banheiro tinha poucos metros quadrados, mas agora parecia ter se expandido em quantidade inimaginável. Caminhou por longos minutos seguindo apenas em frente e quanto mais passos dava, maior parecia a expansão. Cansou-se e se deitou sobre a superfície estranha, sem natureza definida. Nada era definido ali.
— Vê perfeição no vazio? — Uma criatura humanoide brotou da superfície escura, sua pele parecia possuir todas as cores visíveis em fusão, ela brilhava intensamente, mas seu brilho não doía aos olhos. Seu rosto não possui expressão alguma, sua pele era transparente e resplandecente como vidro. Sua voz parecia uma fusão de todos os tons e timbres em um uníssono de múltiplas vozes.
— O ser indefinido é perfeito por definição. A definição do ser o torna imperfeito e pecaminoso.
— Por que a imperfeição o incomoda tanto?
— Pois sou imperfeito também.
— Existe perfeição na imperfeição. — A criatura disparou em direção a ele em um piscar de olhos — seus órgãos são imperfeitos já que são mortais e frágeis, na verdade, eles se autodestroem com o tempo, além de que, muitas vezes, por inconsistências ou predisposições adquirem enfermidades — com um movimento de mão delicado semelhante ao tracejo de um maestro sinfônico, a criatura fez com que o corpo do homem se dividisse em dois e flutuasse para cima. Seus órgãos em vermelho vivo se exibiram flutuantes, mas nenhuma gota de sangue jorrou. — Mesmo assim, é um sistema perfeitamente planejado, cada parte contribui para que sua existência se mantenha funcional, de certo modo, isso é uma perfeição imperfeita. — Disse a criatura, ao se afastar, o corpo do homem sistematicamente se restituiu, como se uma mão invisível cosesse cada parte na outra.
— Você é prolixo. — Disse o homem, com expressão indiferente. — A existência humana é uma imperfeição, somos seres egoístas e maldosos controlados por impulsos “ele, isso”.
— Sua visão está inundada pela mesma escuridão que está o rodeando. Mas foi por isso mesmo que o trouxe aqui. Pelo motivo que lhe disse antes, minha existência imperfeita parece ter encontrado seu fim. E sinto em você fragmentos do meu eu do passado. Em outras palavras, somos iguais, reflexos da mesma existência. Você deve me suceder.
— Do que está falando? Quem é você?
— Eu sou a lei onipresente e onipotente que rege a existência de forma onisciente. E essa lei vai ser orquestrada por você desse momento em diante. Espero que torne o imperfeito perfeito como diz. Adeus.
Uma sequência aguda de gritos em uníssono ressoou enquanto a criatura se contorcia violentamente, seus membros dobravam-se em posições estranhas, seu brilho interno aumentava e começara a vencer a nulidade do vazio. Logo, toda sua visão foi cegada pela luz penetrante que irradiou da morte da criatura. Sentiu que essa luz estava penetrando sua carne e se espalhando por dentro dele. Até que enfim, tudo apagou.
Gramado verde-puro e macio acariciava a sola de seus pés, sua pele parecia ter assumido a transparência e polidez do vidro. Via as folhas verdes através da forma de seu pé. Poderia dizer o resto do seu corpo. Mas pouco importava. Caminhos se dividiam ao redor em corredores retos com curvas abruptas. Paredes se erguiam e limitavam os corredores a estreitos. Nas paredes, visões de vidas passadas do nascimento a morte rodavam em velocidade alta, como telas de cristal líquido irradiavam luz e imagens quase distorcidas, mas compreensíveis. Toda a memória e existência humana parecia estar sendo armazenada nesse labirinto quase completamente escuro, não fosse as luzes fantasmagóricas jorradas das telas. Vagou por todos os caminhos, absorvendo cada detalhe e sentimento que nas telas clamavam por atenção. Agora compreendia.
Todos os caminhos levavam a um só lugar, mas lá a luz quase não chegava. No centro do labirinto, a escuridão vencia. Uma forma pulsante sussurrava e chorava, formada da massa de diversos braços e pernas em uma gigantesca esfera de carne escura. Via-se um sorriso de dentes escuros num possível rosto que se mexia apenas a cada sussurrar de palavras incompreensíveis e olhos semicerrados que pareciam prestes a chorar. Fitou essa silhueta por incontável tempo, esperando que ela se comunicasse com ele. Mas aquilo não parecia perceber sua presença. Raízes negras penetravam por sua base, vindas de todos os caminhos do labirinto, aquela massa parecia ser a forma resultante do conteúdo do labirinto. Deveria destrói-la. Mas não era tão simples, a existência dela não era humana para ser simplesmente morta. Ela só morreria se a humanidade a matasse, ou seja, se as raízes negras sumissem. Estava fora de seu controle. Raízes pareciam sair de cada uma das telas, talvez a individualidade fosse a raiz.
Talvez tudo fosse resolvido se o sofrimento humano não mais existisse. O pecado e o sofrimento não mais existiriam, pois tudo seria perfeito. A existência humana seria meramente consciência, o corpo físico e a experiência seriam internas e ilusórias. Toda a forma física seria substituída pelo vazio. Cada existência daria forma a sua própria utopia pessoal com duração limitada pela morte, que apenas daria reinicio ao ciclo da consciência que se repetiria novamente com os mesmos acontecimentos. Nada realmente existiria. E a forma escura também não existiria.
Assim o fez.
As telas do labirinto agora exibiam cada utopia. Mas a criatura tão pouco desapareceu. Na verdade, o tempo de duração de vida parecia diminuir cada vez mais e as repetições aconteciam em quantidade inversamente proporcional. Observando os reflexos das telas, os humanos pareciam indiferentes e inativos em relação a existência, como se inconscientemente soubessem que tudo se repetiria semelhantemente após suas mortes. Mesmo tudo acontecendo em repetição, uma coisa era variável, a morte. Sem a imperfeição, a perfeição e felicidade pareciam ter valor inexistente.
Escutou risadas profundas vindas da criatura, seus dentes escuros arqueados em um sorriso assustador. — Não podes me fenecer, eu sou a própria humanidade. — Isso tinha a voz feminina, doce e delicada, em discordância com sua aparência. — Mesmo que não queira, até em você eu vivo.
Decidiu que a imperfeição deveria voltar a existir. Agora seria meramente um observador. Não queria mais interferir. Melancolicamente caminhou por todos os corredores observando o sofrimento voltar a dançar nas telas. Mas em contrapartida, sua oposição também. A verdadeira felicidade brilhante e calorosa, algumas vezes surgia aqui e ali. Brevemente, mas o suficiente para a imperfeição valer a pena. Estava contente.
Nos últimos tempos, sua atenção estava focada em uma tela em específico. Por motivos que ele mesmo desconhecia, sentara com as pernas cruzadas no gramado a observando atentamente. Viu aquela existência partir da inocência pueril de um recém-nascido até a idade adulta. Em certo momento, sentiu que sua existência estava chegando ao fim e que aquele humano deitado em posição fetal em um piso branco frio, da qual observava por décadas do tempo humano, devia substituí-lo. Afinal, eram iguais, reflexos da mesma existência.