capítulo 1

Água

Tudo ao redor parecia entrar em estado líquido e transparente quando sentia as gotas do chuveiro pingarem constantemente no seu rosto. Esqueceu de tudo por alguns minutos, se concentrando apenas naquela sensação calmante que a água morna proporcionava. O vapor resultante. Não pensava em nada, apenas se apagava, quase como se dormisse acordada. Ficava muito entorpecida. Tudo que queria naquele momento era ser menos ela e mais o resto. Seu corpo ficara na forma da água, podia ver seu coração bater em meio ao escorregar do chuveiro, batia calmamente no tom azul-cristalino, os órgãos vizinhos calmamente também se banhavam em pacífico pulsar. A suavidade aumentou e eles começaram a derreter como gelo e descer, sentiu como se deslizasse pelas fendas sujas do ralo, seu corpo liquefeito se desfazendo pelas frestas assustadoramente.

Alguém bateu na porta, o seu banho acabou e sentiu-se como se acordara de um transe autoinduzido. Devia ter demorado muitos minutos dado a forma como a pessoa ao outro lado da porta parecia impaciente. Vestiu calmamente seu vestido florido de cor branca, seus girassóis amarelo-claros enfeitando-o. Ao abrir a porta, uma torrente de fúria avançou em sua direção. Diante disso, quase que imediatamente, água verde-cristalina jorrou pelas cortinas vermelhas das janelas da sala e inundou o corredor até o banheiro. Mas nenhum móvel flutuou ou parecia ter sido banhado. Sua mãe se agitava na água com o rosto vermelho, enquanto ela observava curiosa bolhas jorrarem pela boca dela em sincronia com cada palavra gritada. Inaudíveis pela água. Os longos cabelos ruivos de sua mãe flutuando para cima, era a única coisa que flutuava. Quando as bolhas cessaram, decidiu que queria tomar um pouco de ar fresco no jardim. Estava precisando de ar. Muita água no pulmão. Deixando a torrente de fúria para trás na soleira do banheiro, nadou delicadamente até o portal da sala e girou a maçaneta com as mãos branco-pálidas. Não costumava pegar muito sol.

Ao atravessar a linha que dividia sua sala do jardim, saiu da inundação. A água parecia ser bloqueada por uma parede invisível que se erguia bem na divisão. Na divisão do mundo seco do mundo molhado. Seu belo vestido subitamente se secou, junto com seu cabelo ruivo encaracolado, uma mistura dos cabelos de seus pais, que era especialmente sedoso e brilhoso à luz do sol alaranjado do fim de tarde. Várias nuvens poluindo o céu azul, no entanto, pareciam anunciar que choveria em muito breve. Um pé de cerejeira, com suas flores cor-de-rosa, era cercado por um saudável gramado verde-limão que se espalhava pelo resto do jardim. Um cercado de madeira branca, coberto de folhas e raízes de samambaia verde-folha, separava o jardim do lado de fora. Vasos ornamentais com rosas, lírios e gérberas se organizavam nos cantos do lugar. O ar era puro e de alguma forma leve, a leve brisa balançava com levezas as folhas ao redor. Sentia paz. Seu pulmão não estava inundado. Não se sentia perdida na superfície da água, não sentindo nada. Entorpecida.

Deslizou para o meio do jardim e se deitou sobre o gramado macio, as folhas altas em seus galhos floridos tampando parcialmente o sol em sua face pálida. A consciência não durou muito e sua mente se esvaziou. Ora, as nuvens eram tão calmas. Mas estavam mudando de cor e se movendo rápido, o branco estava sendo consumido pelo cinza-escuro. Precursor de tempestades. Crivelmente anunciada por uma gota gelada em sua bochecha esquerda, e outra gota. E outra. E outra. Logo, centenas de gotas escorregavam pelas folhas da cerejeira. O sol parcialmente desapareceu, dando lugar à quase escuridão em plena tarde. Clarões violentos rodopiaram pelos céus, barulhentos. Mas ela achava a chuva, mesmo tempestuosa, agradável e bela. A água da chuva estava criando uma fusão entre seu corpo e o gramado, como se ele tivesse crescido sobre seu torço, folhas verdes de grama e musgo.

Em meio a tempestade raivosa, algo no ar parecia pulsar e respirar. Ela sentia. Então, de abrupto, próximo a ela, cinco dedos de uma mão se ergueram debaixo da grama por meio ao barro. Que logo se tornou em um braço completo, sujo de lama escura. Outros dedos surgiram em outras partes do jardim e também se tornaram braços e pernas. Mas sem corpos. Quando fileiras de membros preencheram todos os cantos do jardim encharcado, menos onde ela se deitava, deram espaço, de forma cortês, para que um gigantesco olho de íris azul-cristalino, sem nervos óticos, apenas o globo, saísse dentre o solo e flutuasse até uma certa altura. Como um disparo, todos os membros ao solo ao seu redor formaram uma gigantesca esfera medonha. Pulsava e, após ter tomado forma, parecia possuir uma expressão facial. Tinha agora, dois olhos, nariz e boca. Os olhos melancólicos e semicerrados, pareciam sonolentos. O nariz fino gotejava chuva por sua ponta. A boca arqueada em um sorriso cínico de dentes escuros, não se mexia. A esfera ainda tinha resquícios do barro da qual fora gerada, mas os lençóis de água cristalina faziam com que lentamente o barro escorresse.

— Pois serias tu, Mãe Natura? — Disse isso, com uma voz incoerentemente feminina e doce, finalmente movendo sua boca. — Nascida do caos e fecunda da harmonia.

As palavras acordaram-na e fizeram com que as folhas de grama evaporassem de seu torço, voltando seu corpo ao normal. Levantou-se com um salto e mirou a criatura com olhos congelados, não disse uma palavra. Apenas ficou parada com uma expressão confusa, a tempestade balançando seu vestido florido para os lados com virulência. Ignorando a criatura, alçou sua mão até um dos galhos baixos da cerejeira nas pontas dos pés e acariciou gotículas de chuvas em suas folhas melancolicamente. De forma delicada, como se não quisesse ferir a árvore. Por fim, sentou-se ao pé da árvore e voltou a encarar a criatura, os olhos vidrados e seu corpo cada vez mais encharcado pela chuva que deslizava pelo tronco.

— Não saberia dizer quem sou eu.

— Pois eu lhe digo, és minha progenitora. — A criatura abriu um sorriso aberto e mirou olhos vidrados paras as nuvens. — De dia, Gaia. De noite, Ofélia. Oh, tão pura. Ela deu um sorriso confuso, os olhos perdidos em algum lugar distante dali, quase dormia.

— Me geraste em um labirinto de acontecimentos infinitos, em meio ao gramado de Elísios. Me abandonastes naquele lugar escuro.

O sorriso dela não mais parecia um sorriso, era quase um choro reprimido, um sorriso doloroso.

— Não chores, não odeio a ti. Lá era o meu lugar, sou um só com a humanidade em suas intimidades. — Os olhos da criatura desceram dos céus diretamente na expressão dela. — Assim como tu.

Ela agora parecia tremer, os lençóis de água estavam especialmente gélidos, sentia a frieza penetrar por sua pele.

— Minha forma lhe assusta, assim como a humanidade lhe assusta. Mude-me. Torne-me agradável.

A chuva subitamente cessou e o céu escureceu. A criatura era pouco visível agora. Algo parecia estranho no ar quando os gramados começaram a se iluminar. Foi possível ver o sorriso da criatura aumentar ainda mais quando cada folha de grama explodiu em fortes chamas carmesim. As chamas pareciam não ter efeito na mulher sentada no tronco da árvore, não eram quentes e não queimavam nada, e tão pouco parecia assustada. Vislumbrava tudo aquilo como se fosse parte de uma pintura surrealista dramática.

A criatura se cobriu em carmesim brilhante e desapareceu em meio às chamas. A mulher suspirou e seu sorriso doloroso virou um sorriso delicado, enquanto levantava fracamente se escorando com as mãos no tronco. Via uma silhueta caminhar em sua direção por trás das chamas. Seu coração acelerou os passos. Um rosto sorridente surgiu, a pele branca de aspecto perfeito, os olhos vermelho-carmesim, assim como as chamas. Seus cabelos louros lisos batiam nos ombros. Seu corpo se assemelhava com a estética de estátuas repetidamente esculpidas até a perfeição. Ambos se encararam por vários minutos sem dizer uma só palavra, como se quisessem absorver um ao outro.

Atravessando a porta inundada, sua mãe surgiu no jardim. Sua cabeça ainda coberta em água, agora uma esfera liquefeita, tornando suas palavras incompreensíveis. Ela mirou sua mãe apaticamente enquanto ela gesticulava, os lábios de sua mãe pareciam pálidos, como os de alguém adoentado.

— Me perdoe, eu— Por breves segundos, a esfera liquefeita evaporou. Foram as primeiras palavras que ela conseguira ouvir de sua mãe em muitos anos. Mas logo água jorrou pelos lábios de sua mãe e a esfera se refez novamente.

— Venha. — Disse a criatura, oferecendo sua mão esquerda.

Suas mãos se entrelaçaram e deslizaram para fora do jardim, correndo alegremente. Sua mãe desesperadamente tentando impedir, sua esfera borbulhando em palavras. Em um último vislumbre, viu uma onda violenta de água jorrar pela porta de sua casa diretamente ao jardim, submergindo sua mãe chorosa que se ajoelhava em pratos sobre o gramado em chamas, que se apagaram e o jardim consumiu-se em escuridão.

As calçadas, asfalto e construções assumiam aspecto fantasmagórico naquela noite, dada a falta de qualquer sinal de vida. Tudo que se ouvia era o agradável som do silêncio vindo do céu estrelado. Corriam fazia tempo, mas ela não sentia que suas pernas estavam cansando. Seu coração esquentava apenas com a contemplação romântica de correr de mãos dadas em um mundo vazio. As construções pareciam estar se desfazendo, como fumaça, lentamente. Mas não parara de correr, porque a criatura também não parara. O céu também começou a se esfumaçar, borrando as estrelas como se um pincel de tinta negra embaralhasse sua forma. Tudo estava se apagando, tornando-se em formas difusas, confusas. Como se o mundo adquirisse a percepção subjetiva de Claude Monet.

— Me pergunto — disse a criatura, parando de correr — como tu consegues amar completamente.

Ela sorriu timidamente para criatura, os olhos perdidos na incompreensão de formas que os rodeava.

— Entender todos completamente. Sentir todos completamente.

— Eu não sei. — Ela não sabia.

Azul começou a se espalhar, como se alguém desenhasse um céu de nuvens com tinta. As nuvens pareciam redemoinhos. Um gramado se espalhou pelo horizonte, florido. As mãos entrelaçadas começar a se fundir, como se a carne derretesse e virasse uma só. Logo se abraçaram, para que se fundissem completamente. Sentindo uma ao outro como um ser único. Agora a criatura era parte dela. Mas sempre fora assim. Seus olhos brilharam em carmesim. Seu vestido branco balançou com vento dos gramados. Agora sabia tudo. Cada um dos pensamentos sujos e belos já pensados. Cada um dos atos sujos e belos cometidos. Mas ainda amava completamente.

Deitou-se sobre o gramado de Elísios, sorridente. Era tão quente o sentimento que sentia. Abriu os braços em cruz e virou olhos vidrados em direção às nuvens. Sentiu-se como as folhas do gramado. Como as nuvens calmas. Céu e terra pareciam a mesma coisa, fundidos numa mesma figura. Mitigou-se. Havia um oceano dentro dela também. Assim como as profundezas do mar, onde criaturas jamais descobertas nadavam. Havia um universo dentro dela. Sua infinita expansão era assustadora e imprevisível.

Sua forma se fundiu ao todo.

Tudo era ela.

Ela era tudo.